Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 09 de agosto de 2017 às 19:13

[721.] Velhotes

A campanha da marca Velhotes de vinho do Porto centrou-se no bairrismo em vez de repetir estafadas mensagens modernas, fashion, cosmopolitas e internacionalizantes.

"Gosto deste Porto": em letras brancas gigantes em fundo escuro, repetindo a cor do nome da marca e do fabricante Cálem na garrafa escura, o slogan diz em simultâneo que o narrador e o observador que o lê gostam desta cidade e gostam deste vinho. Gostar desta cidade é gostar, também, do seu carácter e, por extensão, do seu bairrismo.

 

Esse conceito é "explicado" noutro anúncio, em que a frase, acerca do vinho, diz que "era moda no Porto antes do Porto ser moda." Sugere-se, portanto, um vinho que faz parte da cidade, da tradição, etc., não sendo por o Porto estar na moda que este vinho está na moda, porque já estava. O slogan é um quiasmo, uma figura de retórica em que se cruzam os elementos das frases. Neste caso, moda-Porto e Porto-moda. A força da linguagem verbal é tão grande que parte significativa da publicidade lhe dá mais importância e destaque do que à imagem. Neste anúncio, apesar de a garrafa estar em tão grande dimensão que até o gargalo está tapado pelo slogan, apesar de ser visível o nome da marca no rótulo, os publicitários repetiram o nome Velhotes no canto inferior direito, à "saída" do anúncio. Por baixo do nome há, ainda, uma frase, imperceptível.

 

É uma pena que o slogan tenha um erro gramatical, bem comum hoje em dia, mas mesmo assim um erro gramatical: a frase deveria ser "antes de o Porto ser moda", dado que o elemento posterior à preposição "de" funciona como sujeito da frase seguinte. Os erros gramaticais aceitam-se em publicidade que faz do jargão a sua linguagem, mas não é o caso. A responsabilidade social da publicidade passa pelo bom uso da língua.

 

O jargão é, entretanto, a estrela no anúncio mais surpreendente da campanha, o do "billboard" colocado nas fronteiras rodoviárias e, claro, nas redes sociais, onde já faz merecida carreira. Diz: "Bem-vindo de volta ao país dos campeões da Europa, carago." Por baixo, em letras menores mas acentuadas pelo itálico, a versão francesa: "Bienvenue au pays des champions d'Europe, cárragô." A tradução substitui o "bem-vindo" por "boas-vindas" em francês. Noutro cartaz, o francês toma a primazia e a tradução portuguesa vem por baixo.

 

O slogan tem graça, pois corresponde exactamente à expressão dos portugueses emigrados e dos luso-descendentes. O uso de palavrões e jargão é uma das "marcas" lusas em França. A vitória da Selecção Nacional de Futebol no campeonato em França coincidiu com um movimento colectivo de recuperação pública do orgulho das origens por partes dos portugueses e suas famílias em França, depois de décadas de silêncio e alguma humilhação, talvez mais um sentimento de inferioridade. A vitória no Euro constituiu o apogeu desse movimento e inverteu a humilhação, entregando-a aos franceses com a sua derrota na final, na sua própria terra, na sua capital, no seu estádio chamado "de France".

 

O anúncio é para este público-alvo: não diz apenas bem-vindo, mas "bem-vindo de volta" às centenas de milhares que se metem à estrada para o seu querido mês de Agosto na santa terrinha. Não diz bem-vindo a Portugal, mas "ao país dos campeões da Europa", espelhando esse orgulho que estilhaçou a humilhação. E o "carago" ou "cárragô" dá-lhe o toque final, portuense, nortenho, nacional e luso-descendente, fazendo de Velhotes um produto "nosso", não "deles", na oposição binária pressuposta no texto.

 

Sendo uma das marcas mais vendidas, o rótulo da marca mantém-se intocável há décadas, com os seus três velhos brindando à mesa com cálices de vinho do Porto. Como em aposta vencedora não se mexe, a campanha da marca utiliza a imagem do rótulo para estimular uma aproximação a outros públicos nas redes sociais, acrescentando balões de diálogo entre os velhos. Numa delas, o primeiro velho diz "Nós os três somos uma rede social", o que até é verdade. O segundo diz "Partilhamos Velhotes e dizemos Like". O terceiro remata "Brindemos a isso". Brindemos, também, a publicidade original, surpreendente, divertida e bem dirigida aos públicos-alvo. 

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