Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 06 de setembro de 2017 às 19:00

[725.] Mercedes-Benz, Škoda, Mitsubishi

Continuo com muito andamento — automóvel. Os modelos são novos, mas há anúncios que soam antigos. A Mercedes-Benz bem tentou renovar o velho binómio razão-emoção, mas mesmo com palavras novas a coisa soa a déjà-vu: "Beleza e inteligência, por fim juntas."

A beleza é para a gente se apaixonar, a inteligência é para raciocinar. As duas qualidades são atribuídas ao novo Mercedes-Benz Classe S, mas é para apelar à emoção e à razão do observador que se encontram pela enésima vez em título de anúncio automóvel. O texto atribui-as ao carro, mas termina por revelar no final destinarem-se ao observador. A frase "Sinta a condução inteligente" diz ao observador que se emocione e raciocine.

 

Ao dizer "por fim juntas" a beleza e a inteligência, os publicitários recorrem ao procedimento corriqueiro de fazer tábua rasa do passado. Se elas estivessem "por fim" juntas, só agora, significaria que não estavam nos modelos anteriores da marca. A frase poderia ser "novamente juntas", mais correcta do ponto de vista da marca, mas não criaria a sensação de novidade. Em pouco mais de 40 palavras, o texto inclui três vezes "novo" e uma vez "novas", quase 10% do total.

 

O "por fim juntas" reitera a velha máxima da publicidade, de incluir uma "Proposta Única de Venda". Embora se trate dum produto de gama alta, concretiza a velha técnica publicitária do "dois em um", tão glosada nos anúncios de produtos do lar. Dado que os publicitários em certas questões são muito explicadinhos, o texto diz que o novo modelo "é beleza e inteligência, num só". Duas em um.

 

"O que se passa?" Eis uma pergunta que fazemos amiúde; sugere situações de mistério, suspense e convida a resposta imediata. Os publicitários de Škoda Octavia procuraram chamar a atenção através dessa pergunta no título dum anúncio: "Já descobriu o que se passa com o novo Škoda Octavia?" É claro que andávamos todos preocupados; nem conseguíamos dormir sem saber o que se passava com o novo modelo da Škoda. Por isso, o anúncio começa por perguntar ao leitor se "já descobriu". O "já" significa que o leitor andava há que tempos para tentar descobrir. A questão premente é prolongada por outras perguntas, distribuídas pela foto, junto do automóvel, como que em alíneas: "Será o espaço?", "Será a conectividade?", "Será o design?", "Será a oferta de 3.500€?". É tudo isso, naturalmente. O pequeno texto usa três vezes a palavra "mais", duas vezes "novo" e uma vez "melhor".

 

Como caminhamos rapidamente para uma Europa de carros híbridos, eléctricos e usando ainda outras formas de energia, é natural que a publicidade do modelo Outlander PHEV de Mitsubishi faça do carregamento eléctrico a estrela da imagem e do texto. Não falta a metáfora no título: "Carregue a vida de boas energias." Noutro contexto, dizer a alguém para "carregar a vida" seria uma desagradável lembrança da nossa passagem por este vale de lágrimas, mas aqui faz sentido jogar com as palavras "carregar" e "energias", acrescentando-lhe a "vida", pois é sempre bom animar o pessoal. As "energias" também estão em duplo sentido, justificando-se o plural por ser um híbrido, e porque a vida, na publicidade, é só alegrias, as tais "boas energias". É claro que não faz muito sentido falar no plural quando uma das energias, o combustível petrolífero, não poupa "o seu planeta", mencionado no texto. Mas, já se sabe, a publicidade, para brincar com palavras e estimular sonhos, não é muito ortodoxa.

 

Nas imagens da campanha, o veículo aparece em menor dimensão do que o desenho de uma pilha semelhante às de 1,5 volts. A enorme pilha é azul, como o planeta, o mar puro, o céu limpo. Mesmo quem está dentro da pilha — porque está lá gente — foi tintada de tanto azul. É um homem que levanta nos braços — para o céu azul — a criança feliz. O homem poderá estar a entreter a criança, pois na imagem abaixo ou ao lado o carro está a carregar as baterias de electricidade.

 

O funcionamento eléctrico no híbrido é a Proposta Única de Venda deste modelo. Para que não sobrem dúvidas, junto dos já nossos conhecidos "novo" e "inovador", aparecem no texto a palavra "único" e o seu sinónimo "ímpar".



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