Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 13 de setembro de 2017 às 20:38

[726.] Lidl, El Corte Inglés

A cadeia de supermercados Lidl usou uma fotografia da ilha grega de Santorini nas embalagens de iogurte grego, mas censurou-a: apagou a cruz de Cristo do topo de duas cúpulas azuis da igreja e da torre sineira.

Azar: aquele local é conhecido por milhões de turistas e, porventura, por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Eu vejo, todas as semanas, pelo menos uma fotografia daquele magnífico sítio no Facebook. Vieram protestos às centenas.

 






O Lidl, ou a sua agência, agiu de maneira infame. Primeiro, porque mudou a realidade referencial. Segundo, porque retirou a identidade cristã (ortodoxa grega) ao edifício. Terceiro, porque o fez num produto que invoca ser grego. O arcebispo ortodoxo grego no Reino Unido chamou-lhe uma "decisão estúpida". Mas é ainda mais do que isso.

 

A cadeia alemã cedeu antecipadamente a qualquer objecção que pudesse vir a existir por parte de não-cristãos à presença do mais importante símbolo cristão numa paisagem humana emblemática. Disse um porta-voz da Lidl na Bélgica: "Estamos a evitar o uso de símbolos religiosos, porque não queremos excluir nenhuma crença religiosa. Somos uma empresa que respeita a diversidade, daí o design dessas embalagens." É mentira: a empresa tem uma linha de produtos com minaretes de mesquitas desenhados nas embalagens. É hipócrita na mentira: ao "não querer excluir nenhuma crença religiosa" excluiu uma, aliás, a única que constava na imagem. O que o Lidl quis foi não excluir nenhum possível comprador, ofendendo milhões para servir a estratégia comercial.

 

Um responsável da cadeia Lidl no Reino Unido disse outra mentira: que "não foi intencional". Como pode não ser intencional o acto de usar um software como o Photoshop para alterar uma fotografia, para dela retirar elementos referenciais – e logo a cruz de Cristo?

 

Eis a que ponto chegou o "politicamente correcto" e o medo, o medo que se infiltrou na esfera mental do Ocidente. Está tudo mal: a embalagem de produtos com denominação grega censurando um elemento fundamental da cultura grega; a cedência ao medo e ao "politicamente correcto", sempre contra os valores da liberdade e da tolerância próprios do Ocidente; a justificação da cobardia com mentiras.

 

O El Corte Inglés agiu ao contrário na sua campanha "Regresso às aulas": espalhou pelos quatro cantos do espaço público um cartaz protagonizado por um menino mulato. Isto é, aderiu ao que é realmente politicamente correcto, correndo eventuais riscos de rejeição.

 

Porquê? Porque há, de facto, uma rejeição em parte da população pela presença destacada de não-brancos em conteúdos mediáticos, entre os quais da publicidade. Há anos, uma revista cor-de-rosa rejeitou a proposta de uma capa com uma negra por essa razão. Trata-se de ajustar os conteúdos mediáticos a esse racismo primário – primário no sentido em que é de impulso, de rejeição do outro, e não baseado em pressupostos ideológicos, esses bem mais perigosos. São, todavia, racismo.

 

No Brasil, país em que mais de metade da população se identifica como negra ou parda, as novelas da Rede Globo de 1995 a 2014 só tiveram 4,4% de homens não-brancos e 3,8% de mulheres não-brancas. Ao contrário desse e doutros países, em Portugal, a população não-branca constitui uma minoria (estatisticamente desconhecida, porque não temos auto-identificação de raça nos censos), pelo que a sua representação nos media não tem sido uma questão, nem se tem invocado a necessidade de quotas. Deste modo, os agentes publicitários não sentem a pressão, como naqueles países, para representar os não-brancos nas suas campanhas. Daí que a singela foto de um mulato – mesmo que de um menino, mais facilmente aceite pelos observadores ainda imbuídos de racismo primário – seja um pequeno acto de coragem, normalizando na comunicação comum o outro, minoritário na sociedade.

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mais votado Anónimo 13.09.2017

Assiste-se cada vez mais a Organizações a pessoas e Países que não são nem carne nem peixe tem uma espinha maleavel e um catavento deixaram de ter caracter.
E servem para quê ? ?

comentários mais recentes
Anónimo 17.09.2017

O deus dinheiro é capaz que os seus seguidores reneguem os Deuses já existentes.

Anónimo 13.09.2017

Assiste-se cada vez mais a Organizações a pessoas e Países que não são nem carne nem peixe tem uma espinha maleavel e um catavento deixaram de ter caracter.
E servem para quê ? ?