Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 28 de agosto de 2017 às 21:45

726.000.000.000 euros! 

Recentemente, o Banco de Portugal divulgou os dados do endividamento da economia portuguesa relativos ao primeiro semestre de 2017. São números impressionantes e que não param de subir.

O endividamento era, em junho, de 726 mil milhões de euros, o que representava 386% do PIB anual português. São precisos quase quatro anos para pagarmos a dívida total do país.

 

O setor público contribuiu com 317,7 mil milhões de euros e o setor privado (empresas e famílias) com 408,3 mil milhões de euros.

 

Nos primeiros seis meses de 2017, o endividamento cresceu 10,9 mil milhões de euros.

 

Por mais explicações que nos tentem dar (mais técnicas ou mais demagógicas), os números não podem ser contrariados: o modelo económico mantém algumas fragilidades de há 20 ou 30 anos.

 

A economia continua a depender fortemente da procura interna. O crescimento do PIB no 2.º trimestre do ano (2,8% em termos homólogos) espelha essa realidade. O crescimento do crédito ao consumo e das importações (com saliência para os bens de consumo de particulares como automóveis e aparelhos de tecnologia) já ditaram o regresso ao desequilíbrio da balança comercial e ao défice externo. 

 

Basta a economia acelerar um pouco para que o endividamento aumente e a poupança caia significativamente, quando deveria acontecer o contrário.

 

O que se pode fazer para contrariar a situação? Existem vários caminhos, uns mais fáceis, outros mais difíceis no atual contexto político.

 

As reformas estruturais têm de ser o foco. Portugal, para ser atrativo ao investimento, necessita de estabilidade normativa, de flexibilidade e de uma rápida resposta na aprovação de projetos que carecem de aprovações por parte do Estado, de um quadro de incentivos financeiros claro e com um excelente tempo de resposta e de melhorias em diferentes setores, como, por exemplo, a justiça.

 

O Estado tem de gastar menos e pagar mais rápido aos fornecedores, não prejudicando o nível de serviço público. Como? Racionalizando. Existem serviços administrativos em vários ministérios, especialmente nos de maior dimensão (saúde, educação) que devem ser reorganizados de forma a aumentar a produtividade. As cativações são feitas por vezes às cegas, não contemplando as reais necessidades de cada área. 

 

A poupança é o garante do investimento e só este pode criar emprego e crescimento sustentável. A poupança das famílias está a um nível que é menos de metade do valor médio da União Europeia (4,5% do PIB em dezembro passado) e com tendência para diminuir. E de, por isso, ser incentivada.

 

As exportações, a substituição de importações e o investimento são o caminho para o crescimento económico sustentável. As empresas e os projetos que contribuam decisivamente para a balança comercial e para o PIB devem ser financeiramente apoiadas. Ao contrário, devemos parar de sustentar os "zombies".

 

A ideia atual de "Portugal está na moda" deve ser capitalizada, não apenas pela vinda de turistas (o turismo é o nosso "petróleo"), mas também pela atração de investidores para outras atividades que não apenas o imobiliário e na aposta de apresentação de empresas e produtos no mercado internacional (aumento dos apoios a empresas para estarem presentes em feiras internacionais e noutros eventos importantes).

 

É fundamental inverter o crescimento do endividamento. Caso contrário, podemos vir a ter uma repetição indesejável!

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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mais votado Alvaro Há 3 semanas

Caro Sr. Carlos Bastardo
Não posso senão concordar com os seus comentários sobre o endividamento nacional. É só pena que não haja números que quantifiquem a parte da dívida privada que é provocada pelo estado (lato sensu) cujos atrasos de pagamento poem muitas empresas nas mãos dos bancos!
Infelizmente esta realidade tem sido constante, independentemente do(s) partido(s) no poder, e torna risível a intervenção do primeiro ministro quando pede às empresas de construção civil portuguesas que conquistaram novos mercados internacionais que voltem a trabalhar em Portugal.

comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Não se pode esperar só pelo dinheiro de investidores estrangeiros. Portugal tem que criar riqueza.
"Basta a economia acelerar um pouco para que o endividamento aumente e a poupança caia significativamente, quando deveria acontecer o contrário", será que somos um país sensivel à divida?!!

Anónimo Há 3 semanas

Os de esquerda são como os pregadores de religião sentem-se bem no meio da pobreza, onde o terreno é fértil em vender promessas e ilusões, quantos mais pobres Melhor.

Anónimo Há 3 semanas

Façam uma listagem das dívidas e dos devedores e depois conversamos...a classe média portuguesa deve menos que a média europeia são os ricos que devem muito acima da média europeia.

ComePito Há 3 semanas

Ó Alvaro! Então que agora está tudo maravilhoso você vem com estas análises?
O kosta, limitado como é, totalmente condicionado com os parasitas da extrema esquerda, e habituado desde que era número 2 do pior Governo da história de Portugal que nos conduziu à bancarrota, não custa nada dessas verdades.
O populismo com que governa, com total apoio marcelista, vai anestesiando os portugueses, que por sua vez, não gostam nada de lidar com problemas.
Pagar a dívida nunca fez parte de qualquer política do PS. Como dizia a M Tatcher, o socialismo é ótimo enquanto dura o dinheiro dos outros.
Ainda vamos levar com mais 6 anos disto, pelo menos. O povo não quer ouvir este tipo de msg. O facilitismo sim, é mt melhor aceite.

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