Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 27 de setembro de 2017 às 20:15

[728.] Matinal, WTF

Quando o sotaque das "tias de Cascais" caiu no ridículo, as pessoas que o usavam tiveram de reinventar a sua distinção na forma de falar. E ele aí está, o sotaque fofinho de Lisboa! Principal característica: não se percebe metade. Incluindo nos anúncios.

Tive de ouvir dez vezes - não exagero - o princípio de um anúncio do novo leite Matinal Leve para perceber o que dizia o actor, ou quem o dobrou; e meia dúzia de vezes o que dizia a voz-off dum dos anúncios de WTF.

 

Ambos falam no sotaque fofinho de Lisboa. Para o usar, fala-se com a boca bastante fechada, os lábios um bocadinho espetados para fora. Os sons saem fofinhos. Não se perceber faz parte do sotaque. É para iniciados. Quem não é do grupo social que o adopta que se amanhe. Enquanto o sotaque "tias de Cascais" se diferenciava por uma articulação exagerada, nomeadamente com os "aa" abertos, como em "tiá" em vez de tia, o sotaque fofinho fecha o que pode fechar. Historicizando os dois sotaques, o das "tias" tornava-as compreensíveis, embora distintas, no novo Portugal democrático, e o dos fofinhos distingue-os pela separação e denotação de "classe" num Portugal já "demasiado" igualitário.

 

Extraordinário haver tantos anúncios em sotaque fofinho, pois a regra número um da dicção em publicidade é fazer-se compreender pelo maior número do público-alvo. Se o anúncio de WTF se destina à garotada que já sai à noite (e seus pais), o de Matinal tem um alvo bem maior.

 

O leite visa as mulheres, se interpretarmos o próprio anúncio. Os narradores são três homens que falam para a câmara. Eles não entendem como é que elas têm tantas mãos! Vejam só! Uma para se pentear (embora a actriz não esteja a pentear-se) enquanto a outra atende chamadas do escritório (chegará atrasada ao trabalho?); uma para fazer pesquisa (decerto na internet) para ajudar o filho no TPC (pois, seguindo a lógica, o filho não o faz); "e ainda sobra uma mão para responder aos emails", diz um terceiro homem. "Afinal quantas mãos ela tem?" Pelas minhas contas são quatro, mas posso estar enganado. Das narrativas sobre as supermulheres tão admiradas pelos homens, que trabalham mais do que eles, os patós, passamos à "fórmula" para o "segredo - segredo - segredo" - três, como em Fátima. Vem a voz-off feminina resolver o suspense: "O segredo é uma grande novidade. O novo leite seleccionado Matinal Leve." Já seria bastante, mas a voz acrescenta: "Uma evolução do leite." Porquê? Porque é "um leite sem gordura que contribui para o seu bem-estar digestivo". Aqui, respeito! Tendo em conta a fama do leite como atrapalhador da digestão, é mesmo de realçar a novidade no anúncio. Poderia dizer, em vez de "evolução", revolução. Passamos à terceira parte da narrativa, depois do suspense e solução: o desenlace. É que o anúncio tem uma terceira mensagem: "Leve a vida mais leve com o seu Matinal Leve. Porque eu gosto de leite, porque eu gosto de mim." As três mulheres que correspondem aos três homens patós e felizes por elas trabalharem imenso mostram-se sorrindo, uma delas em frente dumas asas de anjo na parede, para a mostrar santa (boa mãe, boa cônjuge…) e leve (mesmo boa…, para o fazer feliz). O anúncio sugere que elas borrifam para os patós, porque gostam é de si mesmas, mas no fundo elas querem ser assim para os satisfazer. Pois não são eles os felizes narradores? Sob o manto diáfano da fantasia feminista, a nudez crua da verdade conservadora.

 

O sotaque fofinho perturbou-me também no anúncio do serviço da Nos para a miudagem. Com o seu nome singular - WTF - baseia-se numa parceria com os táxis clandestinos da Uber, garantindo a WTF 50% de desconto. Que seja só até 2,5€ é um "pormaior", na campanha, por escrito, não referido pela voz-off fofinha. Outros pormenores: só para duas utilizações mensais durante três meses (seria caso para dizer: "wtf?!")

 

A campanha tem graça, com gente a dançar em ambientes coloridos. A canção dirige-se aos miúdos que se vão embebedar, o que só fica implícito, ou não fosse isto publicidade cumprindo as regras. Vão para o "Caixudré" e não podem conduzir - se calhar nem têm idade. Como voltar para casa à "uma da manhã", quando "tudo acabou/Está tudo a ir p'ra casa"? "Vais chamar a mamã?" Não! Vais de Uber nas condições referidas. Pelo meio da graça, pretende-se envergonhar os miúdos e os seus pais. Mas, à parte o sotaque fofinho e os referidos detalhes, a campanha está bem conseguida. 

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