Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 11 de outubro de 2017 às 20:45

[729.] Calendário "Ao Serviço da Terra"; Paco Rabanne 

Na sociedade de consumo, o corpo "substitui literalmente a alma" e torna-se uma forma de investimento e, portanto, de capital, como escrevia Jean Baudrillard em 1970.

A meu ver, essa condição foi acelerada pela crescente disseminação da imagem, que todos podem fazer, divulgar e aceder: o investimento no corpo não implica a transacção dele mesmo, operando-se na sua exibição. Não há prostituição porque a transacção é a da imagem do corpo, não dele mesmo.

 

Agricultores de Barcelos pousaram em tronco nu, em fotos aparentemente retocadas - o que já deixou de interessar, porque importante é o que se vê numa imagem, não a realidade retratada -, para a produção do calendário para venda "Ao Serviço da Terra". Como convém, para uma boa causa: "Os fundos angariados pela venda do calendário revertem a 100% para a atividade solidária da RECOVERY IPSS." A função moral solidária permite equilibrar o facto de a solidariedade se realizar comprando imagens da exibição de corpos, pois o que se vende são as imagens de agricultores descascados como espigas de milho e não o calendário, instrumento de medição do tempo, tão útil no passado, mas hoje ultrapassado - como o das meninas da Pirelli.

 

O culto do corpo masculino, tão antigo como o do feminino e, afinal, como a própria Humanidade, tem aumentado, paradoxalmente, com a libertação da mulher e da facilitação de ela o apreciar publicamente. À mulher-objecto sucedeu o homem-objecto. O corpo torna-se não só objecto de desejo de outrem, mas do próprio e separa-se da dimensão espiritual do indivíduo. Sabemos o que sucedeu a Narciso: apaixonou-se por si mesmo ao ver-se pela primeira vez reflectido na água da fonte. Numa versão do mito debruça-se sobre a sua imagem e deixa-se morrer. Noutra, suicida-se.

 

A ressacralização do corpo no nosso tempo ignora aspectos negativos porque o corpo é amiúde um investimento de sucesso (como as encomendas do calendário "Ao Serviço da Terra"); mas em especial porque se centra na juventude, quando o corpo é belo.

 

O homem-objecto tem sido crescentemente utilizado na publicidade, em especial em anúncios para um público feminino. Uma nova campanha duma água de cheiro de Paco Rabanne retoma o mito de Narciso, mas, como teria de ser, com um "happy end". Narrativa: um homem muito jovem olha para a câmara (já como se fizesse de qualquer homem um espelho e de qualquer mulher uma admiradora). Está numa casa ficcional onde, por trás do quarto-sala com banheira, estão inúmeras raparigas vendo-o sem serem vistas: "voyeuses". Dois símbolos, um visual, outro sonoro, acompanham a narrativa: a serpente, símbolo do sexo e do falo, aparece logo a abrir, em volta do nome do perfume, Pure XS, isto é, puro excesso, e reaparece num pastiche, pendurado numa parede, da Grande Odalisca de Ingres, envolvendo a mulher (não havendo qualquer serpente na pintura) e numa serpente decorativa ao lado do espelho; a sonorização é preenchida pela orquestração da ária "L'amour est un oiseau rebelle", da "Carmen" de Bizet, que diz que o amor "nunca conheceu lei".

 

Um plano mostra apenas o baixo ventre do jovem em tronco nu, com uma torneira quase em forma de falo à frente do dito do rapaz (nos anúncios de Surf o falo é a própria embalagem do detergente). Ele acaricia a torneira. O jovem aproxima-se do espelho e admira-se, como Narciso. Está apaixonado por si mesmo. Por trás do espelho, sem que ele as veja, está uma dúzia de raparigas cada vez mais excitada. Ele despe as calças. Fica a admirar-se nu. As raparigas desmaiam. Ele pulveriza-se com a água de cheiro, incluindo no falo. Regressa, para fechar, a serpente-falo, desta vez em volta da embalagem do perfume. A serpente mexe a cabeça.

 

Além do mito de Narciso, o anúncio remete para o episódio bíblico de Susana e dos velhos. Susana banhava-se e dois velhos cuscavam-na. São, suponho, os primeiros "voyeurs" da História. No episódio, eles fazem chantagem: ou ela vai com eles ou eles estraçalham-lhe a reputação. No "happy end" bíblico, a virtude de Susana é salva e os velhos executados. No anúncio de Paco Rabanne, o "happy end" visto é o da dominação das mulheres pela exibição do corpo do Narciso. O "happy end" pressuposto, ou sonhado, é a confirmação de que a serpente perfumada do rapaz fará das suas. 


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