Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 12 de novembro de 2017 às 20:15

[733.] Crédito Pessoal BPI

Num anúncio do Crédito Pessoal BPI, a metáfora visual prolonga a frase de acesso, que é um "tour de force" criativo. Diz: "Os meus planos já são uma realidade." Meus, de quem? O anúncio inventa uma personagem e, com ela, uma narrativa.

A personagem é a mulher mostrada. Ela está vestida informalmente, sentada no chão numa casa vazia, folheando um catálogo de materiais e com uma amostra dum azulejo na outra mão. O observador do anúncio atribui a frase de quem fala dos seus planos na primeira pessoa àquela mulher mostrada. Mas nada está indicado sobre essa relação entre a frase e a mulher. É o observador que tira essa conclusão. Deste modo, o locutor da frase pode ser uma qualquer pessoa, um cliente do serviço do banco. As frases seguintes já não são pronunciadas por um eu, antes pelo banco: "Conheça as novas condições […] para renovar e decorar a sua casa", etc.

 

A frase de entrada tem ainda outra particularidade: consegue transformar planos em obras feitas. "Os meus planos" - isto é, algo que se projecta para o futuro - "já são uma realidade", isto é: afinal, fiz os planos no passado e eles já estão a concretizar-se. A frase está escrita de tal maneira que parece que tudo se passa a grande velocidade, como no poema de Pessoa: "O homem sonha, a obra nasce." Numa linha do texto há "planos", na linha seguinte há "realidade."

 

Os publicitários optaram por mostrar na fotografia quer o sonho da mulher, quer a obra, quer os planos, quer a realidade. A mulher que nos é mostrada a escolher materiais para a renovação da casa está, afinal, num mundo virtual: ela tem uns óculos de realidade virtual presos na cabeça, à frente dos olhos. É com eles que olha para o catálogo de materiais de construção.

 

Sem o texto, a imagem seria absurda. Não faria sentido uma pessoa estar a ver imagens virtuais com o equipamento na cabeça e ao mesmo tempo a mexer em catálogos e amostras de materiais. Isto é, a fotografia mostra ao mesmo tempo os planos (pela presença dos óculos de imagem virtual) e a realidade (a casa já em fase de renovação). Deste modo, a imagem traduz livremente o texto do slogan, o tal que passa num ápice de "planos" para "realidade". Outros anúncios da campanha repetem a ideia: eis um homem a guiar um carro, mas com óculos virtuais na cabeça; eis uma família no aeroporto, a caminho das férias, todos com óculos virtuais.

 

As imagens são a mostração duma qualidade que não chegou a ser plenamente enunciada: a rapidez da aprovação do crédito pessoal. O banco prefere não prometer velocidade, mas sugere-a fortemente, quer na frase de acesso, quer na fotografia, que mostra, no primeiro exemplo, a mulher a tratar da renovação da casa quando ainda está na fase virtual, dos sonhos. E, deste modo, verifica-se que o anúncio também quis evitar esta palavra "sonhos", preferindo "planos" para os tornar mais próximos de pessoas determinadas e já próximas de decidir renovar a casa ou "qualquer outra finalidade". No anúncio do homem que conduz, a frase vai mais longe: "O meu carro novo já é uma realidade", quando é ainda a imagem virtual nos óculos que traz à cabeça.

 

Estes anúncios, são, afinal, mais uma de milhares de versões da promessa de "tornar os sonhos realidade". É o que mostram a fotografia: o homem e a mulher estão simultaneamente no sonho - óculos virtuais - e na realidade - "já" dentro do carro ou a renovar a casa "já", palavra que também aparece na frase. Implícitas ficam também as promessas de crédito certamente aprovado e rápido, instantâneo.

 

Mas a descodificação só acontece quando o observador junta a frase de acesso à imagem. É nesta que se concretiza em simultâneo, pelo absurdo que deixa de o ser, o sonho e a sua concretização, uma promessa escondida na frase e que só pela imagem se traduz. Quer leia primeiro a frase, quer veja primeiro a imagem, o observador tem de saltitar entre uma e outra para atingir plenamente a mensagem que lhe promete transformar "já" o seu sonho em realidade. 

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