Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 12 de dezembro de 2017 às 18:34

[735] BMW, Dale Wurfel, Suitsupply e um anúncio falso

Mais um escândalo em viralização: um anúncio de Aston Martin altamente sexista, fazendo da mulher um objecto. Nada de novo a oeste, excepto isto: o anúncio era falso.

Não o posso reproduzir aqui, que a Aston Martin não deixa, dada a utilização abusiva do seu logótipo. O falso anúncio mostrava uma mulher de costas, apenas de blusinha transparente e sapatos de salto alto; uma das pernas estava em cima duma bancada, acentuando a exposição sensual do corpo. A foto foi roubada à "Playboy" alemã de Janeiro de 2012. O grafismo do logótipo e do slogan era tosco e com erros, o que não impediu a imagem de ser tomada como verdadeira e espalhada pela internet. Dizia o slogan aos carros usados da marca: "Você sabe que não é o primeiro, mas será que realmente se importa?" A mulher era, assim, comparada a um carro usado. Mais objecto do que isto é difícil.

 

Mas a história não acaba aqui. Primeiro, apesar de saberem que se tratava de uma falsificação, muitos continuaram a comentá-la, entre o mais fanático machismo e o feminismo mais fanático, mostrando a persistência do abismo na sociedade a respeito da representação da mulher na publicidade e nos media e, afinal, acerca da mulher.

 

Depois, um blogger atento revelou que, sendo o anúncio falso, a ideia era roubada de anúncios verdadeiros! O slogan "Você sabe que não é o primeiro, mas será que realmente se importa?" apareceu num anúncio de BMW usados em 2008 e era ilustrado pelo grande plano duma loura deitada, olhando directamente o observador. Em 2011, Dale Wurfel, uma empresa de carros usados no Ontário, Canadá, usou o mesmo slogan - mas desta vez em dois anúncios. Num deles, uma mulher. Noutro, um homem, nome de topo da moda, Tom Ford, homossexual assumido. Assim, à mulher-objecto somou-se o homem-objecto, tão injustamente esquecido nos protestos politicamente correctos.

 

A mesma sequência ocorreu entre 2016 e 2017 com a marca holandesa de roupa Suitsupply. No ano passado, lançou uma campanha mostrando em cada anúncio uma mulher em tamanho grande e um homem em tamanho pequeno, sendo que ele abusava dela em todas, de forma "engraçada" - essa era a interpretação preferencial de cada imagem, sem slogan. Numa, o pequeno homem de fato dava uma palmadinha no rabo dela; noutra, dois homens escorregavam pelos seios da mulher, tipo campo de jogos; noutra ainda, o homenzinho, de mangueira na mão, jorrava água para a boca da mulher gigante. Houve escândalo e até uma manifestação de protesto convocada em Amesterdão. A marca, numa atitude incomum, publicou os protestos no seu Facebook, mostrando contar com a viralidade escandalizada como campanha de marketing. Entretanto, este ano a marca fez exactamente o que alguns tinham feito toscamente para contrariar o sexismo machista daquelas imagens: numa campanha para anunciar a sua colecção para mulheres, de novo sem texto verbal, cada foto mostra uma mulher de fato junto dum homem nu. Numa das fotos, a mulher tem a mão no rabo do homem. Noutra, o homem nu está deitado num sofá e nas costas deste uma mulher de fato tem uma das botas em cima do peito e a outra em cima do sexo dele. Mais objecto do que isto também não há. A marca goza com o politicamente correcto. Há um anúncio em que um grupo de mulheres rodeia um homem invertendo o que mostrava, há décadas, um reclame que ficou como um dos exemplos da publicidade objectificando a mulher.

É certo que a mulher-objecto é muitíssimo mais frequente na publicidade do que o homem-objecto, mas também é certo que muita da objectificação está no olhar do observador. E, em todo o caso, qualquer pessoa, bicho ou coisa, numa imagem, é, automaticamente, um objecto: a própria imagem. Disso ninguém fala.

 

Nota: numerei erradamente o artigo anterior, pelo que este repete o nº 735 de O Manto Diáfano.

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