Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 20 de dezembro de 2017 às 20:42

[736.] DIM, Planta

O padrão repete-se: um anúncio de raparigas em cuecas causa inquietação e debate sobre a "mulher-objecto", mas um anúncio dum homem transformado em "pão" com manteiga derrete positivamente as observadoras.

O anúncio de DIM mostra três raparigas de costas, olhando um edifício sem interesse (que está nelas). Vestem blusões de ganga e cuecas. Eu digo cuecas, mas a palavra, devido à sonoridade ridícula, tem sido substituída por palavras em inglês. A DIM, marca francesa, escreve bilingue: "A nova linha de slips body touch". O inglês decerto encarece as cuecas. Sobreposto nas moças, o slogan contraria a ideia de "mulher-objecto": "I'm free". É a liberdade de usar e de andar de cuecas. Como as três parecem amigas fraternas e estão iguais na vestimenta e posição, aplica-se a cuecas o slogan mais famoso do mundo: "Liberté, Égalité, Fraternité". Uma delas olha para o fotógrafo e para a observadora e ri-se de boca aberta, como se tivesse sido apanhada desprevenida ou como se alguém lhe tocasse no rabo encuecado - o que já aconteceu, dado que o anúncio só teve divulgação em publicidade de rua. Alguém põe-lhe a mão no fotografado rabo, e assim se faz uma graça de terrível teor machista.

 

Nas redes sociais, apareceram comentários de inquietos com a exploração da mulher-objecto no anúncio - que diz que a mulher é livre. De facto, a imagem vem no milenar caminho de fazer da mulher, pela imagem, o objecto do olhar masculino, o que se acentuou na pintura com a representação da mulher de costas. E não são uma nem duas (Velázquez, Ingres…) as que, exibindo o rabo, olham o observador.

 

Acontece que o anúncio se destina, em primeiro lugar, a mulheres (livres, em especial para comprarem as cuecas). Por isso, os comentários femininos sobre a "mulher-objecto" no anúncio foram moderados. A verdadeira razão para, mesmo assim, o anúncio merecer atenção, assenta na sua forma de divulgação: no espaço público. Imagens como esta - de mulheres em cuecas mostrando o rabo - existem aos milhares na Internet e em papel, nos catálogos das marcas de roupa interior (incluindo de DIM). Todavia, não ocasionam quaisquer comentários, pois a razão para mostrarem rabos é mostrar cuecas. E o contacto com essas imagens, mesmo em anúncios de imprensa, é considerado no subconsciente como privado, enquanto o contacto com imagens iguais na rua é considerado no subconsciente como público, destinando-se a mulheres, homens e crianças, feministas e machistas, etc.

 

A publicidade de Planta com um homem musculado causou, quando exposta em público, reacções que não acontecem agora, que o mesmo macho provoca as mulheres nas redes sociais. Numa das imagens, o modelo está bem sentado no chão junto da lareira natalícia. Ao lado, um pote com torradas; na mão, a embalagem de Planta. Como a rapariga de DIM, ele olha a observadora. Como ela, mostra parte do corpo. Apesar de vestido, tem a camisa e o casaco abertos, exibindo os peitorais e o "six pack". A embalagem, como na campanha anterior, está estrategicamente colocada à frente da zona genital. Qual "Último Tango em Paris", o "pão" convida subliminarmente a observadora ao sexo com "manteiga" - e os comentários de centenas de mulheres no Facebook vão nesse sentido preciso, muitos deles picantes. São comentários de mulheres livres (como a de DIM: "I'm free") exprimindo em humor que gostariam de comer aquele "pão com manteiga", desde que o "produto" não derretesse, como escrevem. A marca agradece que as admiradoras falem em "pão com manteiga", dado que um seu objectivo é precisamente que Planta, que não é manteiga, seja vista como manteiga.

 

Perante esta campanha, todas as mulheres viram bem que se trata de um "homem-objecto", mas ninguém levanta a questão. Porque o que sobra hoje para se protestar contra a "mulher-objecto" e calar o "homem-objecto" é o contexto social, em que a mulher permanece a parte fraca e é a principal vítima de assédio e abusos. 



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