Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 27 de dezembro de 2017 às 19:34

[737.] Michael Kors; Mercedes-Benz

O perfume serve para a utilizadora se sentir bem consigo mesma, mas principalmente para impressionar quem se aproxima. Para atrair. O nome do novo perfume para mulher de Michael Kors vai direito ao assunto: Sexy Ruby.

Quase toda a publicidade de águas de cheiro sugere o sonho de um encontro sexual. O cheiro, colado ao corpo, atrai. Os corpos juntam-se. O cheiro materializa-se no encontro dos corpos. O slogan de Sexy Ruby não obedece à gramática mas todas o entendem, mesmo sem tradução para português: "Magnify your sexy", amplifique, intensifique o seu "sexy". Esta última palavra aparece três vezes entre as 17 palavras no anúncio de imprensa. O rubi, pedra preciosa, fornece o formato para o frasco, a cor púrpura (aqui avermelhada) e a simbologia: já foi símbolo de felicidade e do sangue. Na Rússia, por extensão, tornou-se a pedra dos enamorados que "inebria sem contacto", tal e qual como nesta campanha.

 

A mulher jovem e loura olha para o observador. Traz um vestido vermelho, aberto atrás e prepara-se, na narrativa da imagem, para o tirar. Sexy. Ela, portanto, simboliza o próprio rubi e o perfume.

 

O anúncio em vídeo leva mais longe a sugestão de promessa de sexo. Num belo apartamento urbano (vê-se um arranha-céus pela janela), a mulher avança de costas para o observador, no seu vestido cor de rubi, já pronta para sair. Pega num anel de rubi, observa-o com encantamento e, oh!, vê na transparência da pedra preciosa o que mais deseja para essa noite: vê-se a dançar, sensual, sob uma luz também rubi. Tem o vestido, mas há dois momentos fugazes em que está nua, só ela e o seu cheiro rubi. Com espelhos, ou serão as faces da pedra preciosa, ela multiplica-se para o observador, é uma mulher que se desmultiplica em quatro - que se amplifica. que se intensifica -, dançando, vestida e nua, vestida quando nua com o perfume, que lhe veste a pele, o corpo, mostra-a sexy a quem a olhar, a cheirar.

 

Termina o momento de imaginação. Um grande plano mostra a mão da mulher, já não com o anel de rubi, mas com o frasco de Sexy Ruby.  Ela olha o frasco e olha depois para a câmara, para o observador, com cumplicidade. O perfume cumprirá a promessa imaginada. Dançando, vestida e nua, a mulher terá o que quer: a mulher-objecto é também mulher-sujeito.

 

A empresa automóvel Mercedes-Benz também se apresenta como vencedora, no caso em Fórmula 1, num anúncio de invulgar perspectiva: num plano picado vertical, uma pequena multidão organizada rodeia o símbolo centenário da marca formado em círculo por nove homens abraçados, três dos quais juntam um dos braços no centro para criar a forma estelar. Os outros formam círculos concêntricos em redor, de braços caídos, sem se mexerem, criando uma imagem de inspiração religiosa. A deusa Mercedes une os membros da multidão de empregados e empregadas da divisão de Fórmula 1 da marca. Dois deles envergam os capacetes de condutores.

 

A publicidade recorre com frequência à multidão, para representar o público de consumidores que deseja pôr à compra dos seus produtos e serviços, mas raramente se vê na publicidade uma multidão tão organizada, tão disciplinada, tão parada, tão religiosa. É uma multidão teutónica, fardada, homenageando o seu deus ao crepúsculo. Antes, estaria Cristo no centro duma multidão assim. Agora, uma marca. Mudam os deuses. Diz o slogan: "2018 está nas suas mãos" - suas, dela, uma marca omnipresente e omnipotente.

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