Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 17 de janeiro de 2018 às 19:03

[740.] Air France, Thai Airways 

Anúncios de companhias aéreas permitem ver o quanto a publicidade constrói um castelo de sonho sobre a realidade dos produtos e serviços realmente prestados.

É ver uma campanha de Air France, em que o ar puro, o céu, a etérea transparência azul do firmamento ocupa a quase totalidade da superfície dos anúncios.

 

Um deles, o mais inspirador, acrescenta a água ao céu: metade da imagem é céu azul, a outra metade é uma superfície de água absolutamente quieta, espelhando e espalhando a paz da natureza no espírito do observador. Talvez seja Photoshop, mas que interessa se é um sonho visual bonito? Dividindo céu e água, há um horizonte de montes suaves - ou serão fofas nuvens também? Do lado direito, um casal vestido de branco, a cor da pureza, faz um passo de dança, ele de pés no chão de água, ela no ar, as pernas dela e o braço dele sublimando ainda mais a leveza de tudo aquilo, permitindo comparar asas de avião aos membros do corpo humano; e o movimento espelha-se na água.

 

Acima da linha do horizonte, onde provavelmente passaria um avião de Air France, aparece o logótipo da empresa seguido do slogan deitado, voando levemente, também de branco, silenciosamente, até aos pés no ar da rapariga: "Fazer do céu o mais belo lugar da Terra". Oh, a poesia! Ah, a natureza! Eh, a ecologia! Depois disto, quem poderá associar as viagens de avião a aeroportos cheios de gente, controlos de segurança, este champô tem um mililitro a mais do que o permitido, tem de tirar os sapatos e o cinto, quem relacionará um voo a aviões cheios de gente, malas em cima, sacos em baixo, joelhos no banco da frente, cotovelos lutando pelos braços entre cadeiras, ar filtrado sabe-se lá como, mensagens intermináveis sobre segurança, vendas a bordo, "this is your captain speaking", turbulência, crianças aos gritos, campainhas chamando os serviçais, "excuse me" que queremos ir à casa de banho, vamos servir uma refeição ligeira, acorde porque tem de levantar o assento e o tabuleiro daqui a meia hora?

 

Quem pode associar a actual experiência de voo aos outros anúncios de Air France, todos cheios de céu, de ar, de ar puro? Num deles um braço de um homem fardado, um assistente de bordo, levanta no ar uma bandeja com quatro toalhetes húmidos - que digo eu? -, levanta no céu, porque só há céu além do braço, da bandeja, do logótipo e da frase "Pessoal atencioso, cozinha gastronómica, serviço refinado em longo curso para fazer do céu o mais belo lugar da Terra".

 

Num anúncio de televisão de Thai Airways uma mulher está também numa paisagem de sonho, mas de sonho literal, porque se vê ao fundo, entre o céu e a terra, um "monte-castelo-de-sonho" que mais parece os de Avatar do que o Monte Saint Michel. E há depois um homem que está num restaurante moderníssimo, mais espaçoso do que um palácio real. Ela e ele têm estampados nas faces sorrisos zen e a paz de espírito do budismo. Já não estão, agora, nesses lugares maravilhosos, mas no maravilhoso interior de um avião de Thai Airlines. Ele do lado esquerdo, ela do lado direito, olham-se de longe, longíssimo, como se estivessem a quilómetros um do outro. Que grande que é a primeira classe!, mais espaçosa do que um palácio gastronómico ou o céu até ao Monte de Santo Avatar! A hospedeira quase levita, como o par que dança no anúncio de Air France.

 

Irresistível. Da próxima vez que voar fecharei os olhos e verei estes sonhos nos ecrãs negros das pálpebras enquanto as hospedeiras da "low-cost" gritarem vendas a bordo e arrastarem aqueles carrinhos, mais perigosos que camiões, entre a terceira classe da frente e a terceira classe de trás. 

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