Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 24 de janeiro de 2018 às 19:13

[741.] Mini, Jaguar, Dacia, Ford

Entre as novas campanhas de automóveis tentando variar os pontos de atracção das mensagens, a taça vai para os "desnecessórios" de Dacia.

O anúncio de Mini Electric procura sugerir que, apesar de híbrido, continua a garantir a pica da velocidade. Para isso, cria um abismo entre a vida ao sábado e a vida ao domingo. Nesta minificção, ou ficção Mini, o fim-de-semana divide-se assim: "Sábado épico. Domingo eléctrico." A rima está quase certa e a imagem do anúncio está quase certa, também, com o slogan. Para ilustrar as duas vidas - ora épica, ora eléctrica - a foto é a de um casal numa rua calma, junto dum Mini. A imagem sugere um domingo de recuperação duma noite de sábado épica, com muita adrenalina - e gasolina. Não há "electricidade" na imagem, mas antes a ideia de que, na função eléctrica, o carro terá de andar com calma, senão os ocupantes ficam apeados, como os da foto.

 

Lançando-se numa linha de automóveis "comuns", a marca Jaguar tinha de simular que o seu novo modelo E-PACE chama a atenção de toda a gente - precisamente quando a marca faz um modelo semelhante aos que "toda a gente" da concorrência tem. O slogan diz: "Conduza como se toda a gente estivesse a olhar." A frase tem preto no branco o elemento mágico que dá vida a toda a publicidade: "Como se." Cria-se uma realidade alternativa em que o observador se coloque.

 

A ideia é pôr o observador na posição imaginada de ser admirado por ter este carro, por criar inveja em quem olha (e "toda a gente" olhará). O anúncio de imprensa deixa entender melhor que Jaguar precisa de cativar um público de classe média que quer ser admirado por ter um carro duma marca associada a uma classe mais endinheirada. Para inculcar esta ideia de que qualquer um pode agora ter um Jaguar, o texto recorre duas vezes ao imperativo "habitue-se a ser o centro das atenções". O "habitue-se" é a chave: "habitue-se" à ideia de que lhe é possível, a si, que tinha inveja de quem tinha um Jaguar, ter agora um Jaguar e fazer inveja a "toda a gente".

 

Se o Jaguar E-PACE tem "um sem-fim de características", há carros que jogam no campeonato de as não ter: é o caso de Dacia Sandero e da sua campanha divertida com uma "linha de acessórios para quem insiste mesmo em ter equipamento desnecessário no carro". A campanha recorre a um actor que não deve nada a Apolo, mostrando acessórios idiotas e, claro, inexistentes no Dacia: estrelas no tecto interior para quando se dorme no carro, uma bolinha de cor na antena para o localizar, uma espuma enrolada  no vidro para quando o cão vai à janela, etc. Os falsos acessórios mantêm no site os nomes em inglês, o que acentua o absurdo, como o "Carpet dirt prevention control", que são umas protecções de plástico para pôr no calçado.

 

O título da campanha é bem achado - "desnecessórios" - e chama a atenção para o que o carro não tem, de forma a sugerir que fica mais barato. Se a ideia do observador é comprar um carro barato, porque não um Dacia em vez das marcas mais conhecidas e que, por o serem, tendem a ser mais caras? Por isso o site informa que Dacia Sandero já vem com "tudo" o que "você realmente precisa" e não há "nada a acrescentar".

 

A campanha do novo Ford Fiesta preferiu tentar vender através do amor à primeira vista. Pode ser que sugerindo uma ficção de amor à primeira vista entre um tipo e uma tipa que se cruzam numa avenida à noite nos seus Fiesta também o observador do anúncio sinta amor à primeira vista pelo novo modelo.

 

A coisa passa-se assim: ele vai no seu Fiesta, ela vai no seu. Cruzam-se os carros e cruzam-se os olhares. As pupilas dos olhos dele dilatam-se e entram em modo ficção: ele e ela estão juntos no carrossel, estão juntos no mesmo carro, vão tomar banho juntos, dão uma beijoca. Esta ficção dentro da ficção do anúncio foi o chamado momento do caraças e ele quase que fica sem respiração com o que viu. Uau! Seguem viagem. Portanto, "Feel. Every. Fiesta. Moment". Há que aproveitar qualquer momento com o carro, nem que seja um momento de ficção como este. 

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