Hans-Helmut Kotz
Hans-Helmut Kotz 05 de junho de 2017 às 14:00

A Alemanha vai perder se Macron falhar

Se a Alemanha e Macron não encontrarem um terreno comum, os custos para ambos serão enormes. Não há nenhum malicioso actor externo a impor o populismo na Europa; emergiu organicamente, alimentado por reivindicações reais e difundidas.

Quando Emmanuel Macron venceu as eleições presidenciais francesas, muitos alemães respiraram de alívio. Um centrista pró-europeu havia derrotado, de forma clara, uma populista de extrema-direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional. Mas se o objectivo é conter verdadeiramente a ameaça nacionalista na Europa, a Alemanha terá que trabalhar com Macron para enfrentar os desafios económicos que têm levado tantos eleitores a rejeitar a União Europeia.

Isso não será fácil. De facto, poucos dias após as eleições, ideias centrais da plataforma económica de Macron já estavam sob ataque na Alemanha. Para começar, as suas propostas de reforma da governação da Zona Euro foram alvo de críticas substanciais.

O manifesto de campanha de Macron abraçou a ideia de mais federalismo na Zona Euro, caracterizado por um orçamento comum para bens públicos da Zona Euro, administrado por um ministro da Economia e das Finanças da Zona Euro, responsável perante um parlamento da Zona Euro. Macron também apelou a uma maior coordenação dos regimes tributários e dos controlos nas fronteiras, uma maior protecção da integridade do mercado interno e, tendo em conta a ameaça crescente do proteccionismo nos Estados Unidos, uma política de aquisições "made in Europe".

Uma tentativa de reabrir o debate sobre as Eurobonds, ou a mutualização parcial da dívida do sector público da Zona Euro, foi vista como uma sugestão fantasiosa, ou apenas uma distracção. E, aliás, não aparece em lugar nenhum na plataforma de Macron. Muito mais preocupante para os especialistas e políticos alemães é o desejo de Macron de que a Alemanha faça uso da sua capacidade orçamental para impulsionar a procura doméstica, reduzindo assim o seu gigante excedente em conta corrente.

Estas não são ideias novas: a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional, os antecessores de Macron e economistas em toda a Europa têm feito a mesma sugestão com frequência. E, como seria de esperar, o governo da Alemanha rejeitou rotundamente, baseando-se num raciocínio que, tal como os seus contra-argumentos, está bem ensaiado.

Na sua grande maioria, economistas e responsáveis políticos alemães acreditam que a política económica deve centrar-se quase exclusivamente no lado da oferta, diagnosticando e abordando problemas estruturais. E as autoridades alemãs também sugerem regularmente que a sua economia já está a registar um desempenho próximo dos limites determinados pela oferta.

De facto, longe de considerar o excedente da conta corrente como um problema de políticas, o governo alemão vê isso como um reflexo da competitividade subjacente das empresas alemãs. É o resultado benigno de sindicatos de trabalhadores responsáveis, que permitem uma flexibilidade salarial adequada ao nível da empresa.

A acumulação de activos estrangeiros é um corolário lógico desses excedentes, para não dizer um imperativo para uma sociedade em envelhecimento. De facto, os decisores políticos alemães consideram essencial uma redução do rácio dívida/PIB da Alemanha para o limite máximo de 60% estabelecido pelas regras europeias. Quando é que se tem hipótese de poupar se não for em tempos favoráveis?

Esta postura não se alinha particularmente bem com o programa económico de Macron. Embora o programa de Macron inclua propostas significativas para abordar as questões da oferta com a economia francesa, também favorece a estabilização da produção e, mais importante ainda, o aumento dos gastos em áreas como infra-estruturas públicas, digitalização e energia limpa para impulsionar o crescimento potencial.

Apesar da vitória decisiva de Macron, ele enfrenta uma batalha difícil para implementar a sua agenda económica. Mesmo que a Assembleia Nacional, que será eleita em Junho, aprove o seu programa de reforma, a resistência nas ruas não será menos feroz do que tem sido nos últimos anos.

A Alemanha, contudo, tem boas razões para apoiar as reformas de Macron do lado da oferta e da procura. Afinal, a França e a Alemanha são profundamente interdependentes, o que significa que a Alemanha tem uma participação no destino de Macron.

Embora seja verdade que o governo alemão não pode (felizmente) ajustar os salários, poderia, por puro interesse próprio, apostar no futuro investindo mais no seu capital humano e social - incluindo escolas, desde jardins-de-infância até universidades, e infra-estruturas como estradas, pontes e largura de banda. Esta abordagem reduziria o custo de capital do utilizador privado, tornando assim o investimento privado mais atractivo. Também criaria activos domésticos reais, reduzindo a exposição da Alemanha ao risco de crédito externo. Um excedente de conta corrente mais baixo implica uma posição mais sustentável para os parceiros alemães.

Se a Alemanha e Macron não encontrarem um terreno comum, os custos para ambos serão enormes. Não há nenhum malicioso actor externo a impor o populismo na Europa; emergiu organicamente, alimentado por reivindicações reais e difundidas. Embora essas reivindicações não sejam exclusivamente económicas, a geografia do populismo corresponde à do mal-estar económico da UE: muitos europeus estão a perder há demasiado tempo. Assim, se Macron não cumprir as suas promessas, um eurocéptico como Le Pen poderia muito bem vencer as próximas eleições em França.

Para evitar esse resultado, Macron deve ser mais firme do que seus antecessores na implementação de políticas difíceis mas, em última instância, benéficas. Pode aprender uma lição com o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder. Em 2003, Schröder priorizou as reformas em vez de obedecer rigorosamente ao Pacto de Estabilidade e Crescimento da UE. Era necessária uma maior margem de manobra orçamental para suavizar o ajustamento da economia às reformas audaciosas do mercado de trabalho que ele estava a introduzir. A decisão de dar prioridade às reformas em detrimento do seguimento obstinado das regras revelou-se favorável.

Agora é o momento "Schröderiano" de Macron. Ele também parece ter optado por um pragmatismo fundamentado em detrimento da aplicação cega de regras rígidas (que não fazem sentido em toda e qualquer circunstância). Felizmente, os princípios em matéria de políticas não são escritos em pedra, nem mesmo na Alemanha. Lembre-se de que o governo alemão rejeitou veementemente a união bancária da Zona Euro e o Mecanismo Europeu de Estabilidade, que acabaram por ser lançados (embora alguns digam que foi pouco, e demasiado tarde).

 

A Europa está a passar por uma mudança sísmica, com o seu sistema político a ser minado a partir de dentro (e a tornar-se vulnerável à pressão russa de fora). O medo do "outro" e a percepção do comércio como um jogo de soma zero estão a apoderar-se. Estas circunstâncias exigem uma acção ousada e comprometida, não só por parte de França, mas também pela Alemanha que, em última análise, tem mais a perder.

 

Hans-Helmut Kotz, director de programa do SAFE Policy Center da Goethe University em Frankfurt, é professor convidado de Economia e membro residente do Centro de Estudos Europeus da Universidade de Harvard.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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