Jim O'Neill
Jim O'Neill 27 de novembro de 2017 às 14:41

A anormalidade do petróleo

Ainda que haja a possibilidade de os preços do petróleo rondarem os 60 dólares em Novembro de 2018, o meu palpite é nessa altura já terão aumentado para cerca de 80 dólares.

Escrever sobre os preços do petróleo é sempre arriscado. Em Janeiro de 2015, sugeri que os preços desta matéria-prima não continuariam a cair, e antecipei mesmo que "acabariam o ano mais elevados". Estava errado naquela altura; mas talvez não esteja errado por muito mais tempo.

 

Discursei recentemente na enorme Conferência e Exposição do Petróleo de Abu Dhabi (ADIPEC), que é uma espécie de Davos para participantes do mercado de petróleo. Enquanto estava lá, apanhei o final de uma discussão entre executivos do sector, em que todos concordaram que, por esta altura, no próximo ano, o petróleo ainda estará em torno dos 60 dólares por barril, como está hoje.

 

Eu estava prestes a ser entrevistado pelo repórter da CNBC Steve Sedgwick, a quem eu havia dito: "Isso seria inédito. Os preços do petróleo praticamente inalterados durante um ano?" Escusado será dizer que Sedgwick começou a entrevista contando ao público o que eu havia dito e questionado-me porque é que eu não estava de acordo com os outros.

 

Antes de chegar à minha explicação, quero fazer as advertências habituais. Prever os preços do petróleo é inevitavelmente um esforço pesado; na verdade, faz com que a previsão dos mercados cambiais pareça fácil. Quando completei um doutoramento em mercados de petróleo no final da década de 1970 e início da década de 1980, já havia concluído que tentar adivinhar os preços do petróleo é um desperdício de tempo e energia. Mais tarde, quando estava no Goldman Sachs, muitas vezes me diverti a olhar para os analistas de commodities do meu grupo de pesquisa que se debatiam com o caos habitual da evolução dos preços do petróleo.

 

Enquanto me entrevistava, Sedgwick levantou um ponto interessante: dado que a volatilidade de muitos outros activos diminuiu acentuadamente nos últimos anos, talvez seja uma questão de tempo até que aconteça o mesmo com o petróleo e outras matérias-primas. Isso poderia muito bem acontecer. Em princípio, ele está certo.

 

Mas eu argumentaria que a queda da volatilidade nos mercados de câmbio, de obrigações e de acções reflecte em grande parte a baixa inflação em muitas partes do mundo e a falta de ajustamentos significativos da política monetária dos principais bancos centrais nos últimos anos. Não tenho a certeza de que esses factores se apliquem ao petróleo da mesma forma, especialmente numa altura em que os mercados de energia estão sujeitos a grandes mudanças na oferta e na procura.

 

Do lado da procura, os comentadores estão finalmente a ter noção de algo que foi bastante claro durante a maior parte de 2017: a economia mundial ganhou dinâmica, e está agora a crescer a uma taxa de 4% ou mais. Com excepção da Índia e do Reino Unido, oito das dez maiores economias estão a crescer ao mesmo tempo. E mesmo que muitos países estejam a tentar libertar-se da dependência do petróleo, essa transição não vai acontecer da noite para o dia. Consequentemente, os mercados de petróleo estão a ajustar-se a uma procura mais forte.

 

Do lado da oferta, o fornecedor de petróleo mais importante do mundo, a Arábia Saudita, está a motivar alguma cautela. O governo saudita tem implementado mudanças radicais, tanto no país como na sua política externa, e os motivos não são inteiramente claros. Sem surpresa, os participantes do mercado querem, de repente, acrescentar um prémio ao preço do petróleo.

 

Nos meus dois discursos na ADIPEC, partilhei um slide com linhas de tendência para o preço spot do Brent e para o preço a cinco anos. Durante muito tempo não olhei para o preço a cinco anos por falta de uma abordagem mais baseada nos fundamentos para pensar sobre o preço de equilíbrio do petróleo. Como expliquei em Janeiro de 2015, o preço spot do Brent está menos sujeito a flutuações especulativas e, portanto, é uma aproximação mais pura dos factores comerciais subjacentes da procura e da oferta.

 

O gráfico que preparei - que foi feito antes da subida recente dos preços, no início de Novembro - mostra os preços do petróleo a cinco anos a aumentarem após um período de alguma estabilidade. Com o preço o preço spot já ultrapassou o preço a cinco anos, pode-se  concluir que a mudança de tendência já está em curso. Pela minha parte, não estou certo; mas não ficaria surpreendido se acontecesse.

 

Voltemos à pergunta de Sedgwick. Ainda que haja a possibilidade de os preços do petróleo rondarem os 60 dólares em Novembro de 2018, o meu palpite é nessa altura já terão aumentado para cerca de 80 dólares.  

 

Sedgwick também me perguntou como é que as empresas petrolíferas poderiam fazer investimentos e tomar decisões operacionais menos vinculadas a factores cíclicos. É possível as empresas moderarem a sua excitação durante períodos de subida dos preços e não caírem em desgraça quando os preços estão baixos por longos períodos de tempo?

 

É uma pergunta difícil. A minha resposta é que as petrolíferas precisam de completar a jornada de análise das matérias-primas que eu comecei, mas que nunca terminei. Devem definir um método credível para estimar o preço de equilíbrio subjacente do petróleo. Aí, assim que o preço do petróleo exceder dois desvios padrão desse equilíbrio, devem começar a ignorar os conselhos sofisticados de colegas, analistas e especialistas da indústria.

 

Jim O'Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é professor honorário de Economia na Universidade de Manchester e antigo presidente da revisão sobre a Resistência Antimicrobiana do governo britânico.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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