João Silva Lopes
João Silva Lopes 17 de outubro de 2017 às 09:30

A (arga)massa de que se faz um líder

Se ambos os candidatos que se perfilam para a liderança do PSD deram indiscutíveis provas de transparência – Rui Rio no Porto e Santana Lopes em todos os cargos que ocupou –, Rio parece ter um perfil mais reformista e Santana, um perfil mais social.

Proliferam as opiniões sobre a necessidade – e urgência – de o PSD proceder a uma análise profunda em busca de um programa e – até para alguns – de uma ideologia.

 

Sugerem-se congressos programáticos e vaticinam-se vazios ideológicos irreparáveis com a "pasokisação" do partido ao virar da esquina. Iguais prognósticos ventilaram-se no passado relativamente ao PS, arrastados pelo declínio dos partidos da mesma família na Europa, e que, hoje, ninguém se atreverá a repetir.

 

Mas será mesmo assim? Terá o PSD de ir tão fundo em busca da sua identidade? Não estará, pelo contrário, o caminho à vista de todos?

 

A vida de um partido político faz-se através de três factores distintivos relativamente aos contendores: pelo líder, pela ideologia e pelo programa.

 

Quanto ao líder, o que marcará a diferença será a transparência. Transparência na discussão pública, na relação com o Parlamento e com os organismos independentes e os reguladores, na divulgação da informação sem espartilhos (sobretudo nos momentos difíceis como nas catástrofes), na gestão da comunicação sem fins meramente eleitoralistas, na assunção frontal de responsabilidades políticas. Mas também a transparência de dizer o que se pensa e fazer o que se diz, sem que no final do dia se possa dizer que o problema é dos portugueses quando não concordam com o que pensamos.

 

A ideologia está, logo aí, nos alicerces do PSD enquanto partido reformista e personalista. Se o reformismo já foi descartado pelo facto de a conjuntura política não o permitir malgrado, o apelo presidencialista, a reforma do Estado com a promoção de um sistema fiscal estável e competitivo, um sistema político mais representativo, um sistema de segurança social sustentado, um sistema de saúde eficaz, uma educação baseada no mérito e uma justiça mais célere são, nos dias que correm, inadiáveis. Já o personalismo baseado na percepção do homem como pessoa – e não como mero cidadão – deve nortear a reforma de todos estes pilares do Estado.

 

Finalmente, quanto ao programa, este emerge com alicerces sólidos na procura incessante de soluções para os problemas sociais, atento à sociedade civil e sem excluir nenhum sector da sociedade por pouco relevo eleitoral que tenha. A acrescer ao eleitorado tradicional de pequenos empresários, comerciantes, profissionais liberais, intelectuais, agricultores, jovens, trabalhadores por conta de outrem, o PSD poderá agregar os funcionários públicos que acreditam na progressão por mérito (e são tantos) e os reformados que se preocupam com o futuro dos seus filhos (serão, com certeza, quase todos!).

 

Ora se ambos os candidatos que se perfilam para a liderança do PSD deram indiscutíveis provas de transparência – Rui Rio no Porto e Santana Lopes em todos os cargos que ocupou – Rio parece ter um perfil mais reformista e Santana, um perfil mais social.

 

De molde a congregar todas as valências fica, pois, aqui um repto: o candidato que ganhar poderá assumir, desde já, o compromisso público de nomear o outro para presidente do Conselho Estratégico Nacional do PSD, órgão que se destina a aconselhar o presidente do Partido nas grandes questões nacionais, passando a integrar por inerência, como vice-presidente, a Comissão Política Nacional, conforme resulta das alterações regulamentares de 2016.

 

Só um líder (e uma equipa) simultaneamente transparente, reformista e com visão social terá condições para agregar todo o espectro social que não se reveja num Governo composto por PS/BE, que terão de se apresentar, em conjunto, às eleições legislativas.

 

Se dizem que Passos Coelho terá sido a "argamassa" do Governo até ao momento, o BE poderá ser a "argamassa" da oposição a partir de agora...

 

Advogado

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