Daniel Gros
Daniel Gros 16 de julho de 2017 às 14:00

A armadilha da meta da inflação

O BCE tem de estabelecer a sua política monetária com base na média da Zona Euro. Mas certamente estaria mais confortável se os desequilíbrios ao nível da competitividade, que surgiram durante os anos de crescimento, fossem corrigidos mais rapidamente.

Os bancos centrais têm um problema: o crescimento, em grande parte do mundo, está a acelerar mas a inflação não descolou. Claro que, para a maioria das pessoas, o crescimento sem inflação é a combinação ideal. Mas os bancos centrais estabeleceram o objectivo de alcançar uma taxa de inflação "abaixo mas próxima dos 2%", como refere o Banco Central Europeu (BCE). E, nesta altura, é difícil ver como é que isso vai ser alcançado.

 

Os bancos centrais nunca fingiram que podiam comandar directamente a inflação. Mas acreditavam que, ao darem taxas de juro muito baixas e condições de liquidez generosas na sequência da crise financeira mundial, podiam impulsionar o investimento e o consumo. Em 2009, quando os mercados financeiros estavam em crise e a economia em queda livre, a Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) levou a questão para outro nível, dando início a compras de activos em larga escala, ou o chamado "quantitative easing" (QE). O BCE seguiu o exemplo em 2014-2015, quando a deflação aparentemente ameaçava (erradamente, em retrospectiva) a Zona Euro.

 

As acções da Fed certamente ajudaram a estabilizar os mercados financeiros. O BCE também reivindica que as suas compras de activos, depois dos mercados financeiros estarem já normalizados, desencadeou o crescimento económico e impulsionou o emprego. Mas o impacto terminou aí.

 

O fortalecimento do mercado de trabalho deveria ter levado a salários mais elevados, o que, em última análise, levaria a preços mais elevados. Mas este mecanismo, chamado de curva de Phillips, parece estar quebrado. Apesar do baixo desemprego, tanto nos Estados Unidos como no Japão, os salários não estão a subir, pelo menos, não ao nível que a experiência histórica indica. E os salários que estão a aumentar, em países como os Estados Unidos, não estão a ter o impacto nos preços que seria de esperar.

 

Os motivos para isto não são muito bem compreendidos. No ano passado, a culpa podia ser atribuída aos baixos preços do petróleo; mas, mesmo quando a cotação do petróleo recuperou um pouco, a inflação continuou baixa. Outro motivo, mas mais estrutural, é que os preços dos bens que compõem em grande parte o índice de preços no consumidor tendem a cair com o tempo, porque podem ser produzidos, de forma cada vez mais eficiente, nos países com baixos salários, em particular na Ásia. Além disso, as margens dos retalhistas estão a ser cortadas devido à concorrência que as lojas online fazem.

 

O problema da "falta de inflação" é especialmente grave na Zona Euro e no Japão. Uma vez que o Banco do Japão e o BCE definiram que o seu sucesso está exclusivamente relacionado com alcançar a meta para a inflação, as autoridades monetárias enfrentam agora um dilema. Em particular, o BCE tem agora pouca margem de manobra a não ser continuar com as suas políticas expansionistas, incluindo o QE, até que haja um aumento sustentável da inflação.

 

Para a Fed, o problema é menos grave. Os Estados Unidos estão a registar uma inflação um pouco mais alta que na Zona Euro e no Japão. E a Fed tem um duplo mandato: não apenas a estabilidade dos preços, mas também o pleno emprego. Tendo alcançado este último, pode declarar já meia vitória e dar início a uma subida gradual das taxas de juro.

 

Mas há outro motivo para que na Zona Euro seja mais problemático não alcançar a meta da inflação. Durante os anos em que houve uma bolha, antes de 2007, tanto os preços como os salários aumentaram abruptamente na periferia da Zona Euro, em comparação com a Alemanha, que foi atormentada pelo elevado desemprego e pelos salários estagnados. Com o tempo, estas economias deixaram de ser competitivas. Quando os fluxos de capital pararam subitamente, essas economias não conseguiram lidar com a situação e viram-se obrigadas a aumentar as suas exportações.

 

Agora a Alemanha está agora numa situação próxima do pleno emprego, mas os salários não estão a aumentar muito mais do que 2% – longe da taxa de 5% registada na última vez em que a Alemanha teve um desemprego tão baixo (abaixo dos 4%), há quase 30 anos. A consequente falta de inflação não está apenas a contribuir para o elevado excedente da conta corrente da Alemanha; está também a fazer com que seja mais difícil para os países periféricos melhorarem a sua competitividade face à Alemanha.

 

O BCE tem de estabelecer a sua política monetária com base na média da Zona Euro. Mas certamente estaria mais confortável se os desequilíbrios ao nível da competitividade, que surgiram durante os anos de crescimento, fossem corrigidos mais rapidamente. E a maioria dos políticos europeus iria também acolher bem algum equilíbrio.

 

Mas a verdadeira questão é se a inflação próxima dos 2% é desejável. O QE é uma política para tempos de desespero. Hoje, o ambiente económico é completamente diferente do que era há apenas alguns anos: os mercados financeiros estão dinâmicos, as condições de financiamento são altamente favoráveis e a economia está a expandir-se de forma satisfatória, sem sinais de deflação.

 

Num discurso recente, o presidente do BCE, Mario Draghi, observou que a dinâmica da inflação está "lentamente a ganhar força". Acreditando nas suas palavras, os mercados imediatamente começaram a dar ganhos ao euro, porque os investidores concluíram que, perante estas circunstâncias, as taxas de juro negativas e as compras de activos já não se justificavam. Mas o BCE rapidamente negou esta interpretação.

 

Isso foi um erro. Não faz sentido continuar com políticas desenhadas para uma tempestade quando o sol brilha novamente. O BCE não tem de reverter a rota completamente, mas pode declarar vitória na luta contra a deflação e começar a deixar para trás as suas políticas de emergência.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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mais votado Anónimo 16.07.2017

Numa altura em que a maioria do tipo de empregos prevalecentes na economia portuguesa está prestes a ser amplamente automatizado por via das inovadoras soluções, extremamente económicas e eficientes, já disponíveis no mercado global, é forçoso saber alertar para mais este erro de estratégia e planeamento que é querer garantir a fantasia verdadeiramente lunática das carreiras e empregos intocáveis e para toda vida, e ao mesmo tempo decretar múltiplos aumentos salariais. É que se elevassem um pouco os salários por via legislativa e regulatória, mas deixassem despedir excedentários num mercado laboral flexível no sector público e privado, tudo bem. A automação levada a cabo num racional e oportuno processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital, dar-se-ia, elevando assim todos os mais cruciais padrões e indicadores económicos da economia portuguesa. Mas impedir o despedimento é condenar mais uma vez a economia portuguesa ao empobrecimento e atraso.

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Anónimo 16.07.2017

A manutenção de juros baixos, que é uma medida perfeitamente aceitável no contexto inerentemente deflacionista (aumentavam-se juros no passado, por vezes tremendamente, para combater a inflação em economias "sobreaquecidas") das economias avançadas do mundo desenvolvido motivado pelo progresso da tecnologia e o preço decrescente das matérias-primas, tem de ser encarado como resultado do corrente processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital. Dito isto, estes juros baixos servem como incentivo a este processo de substituição. Economias que usam este incentivo e esta conjuntura para se sobreendividarem por via do excedentarismo, da remuneração excessiva e injustificável de factor trabalho muito acima do preço de mercado e portanto encetando um caminho oposto ao processo de substituição descrito anteriormente estão a criar e a adensar futuros problemas de equidade e sustentabilidade para as suas populações. E não há dúvida que a portuguesa é uma delas.

Anónimo 16.07.2017

Numa altura em que a maioria do tipo de empregos prevalecentes na economia portuguesa está prestes a ser amplamente automatizado por via das inovadoras soluções, extremamente económicas e eficientes, já disponíveis no mercado global, é forçoso saber alertar para mais este erro de estratégia e planeamento que é querer garantir a fantasia verdadeiramente lunática das carreiras e empregos intocáveis e para toda vida, e ao mesmo tempo decretar múltiplos aumentos salariais. É que se elevassem um pouco os salários por via legislativa e regulatória, mas deixassem despedir excedentários num mercado laboral flexível no sector público e privado, tudo bem. A automação levada a cabo num racional e oportuno processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital, dar-se-ia, elevando assim todos os mais cruciais padrões e indicadores económicos da economia portuguesa. Mas impedir o despedimento é condenar mais uma vez a economia portuguesa ao empobrecimento e atraso.