Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 30 de maio de 2017 às 21:50

A audácia

A audácia é uma característica humana que nos permite decidir trilhar com valentia e destemor caminhos desconhecidos ou claramente perigosos.

Toda a inovação pressupõe a audácia de defrontar o convencionado, de remar contra a maré, de desafiar o convencionado, de enfrentar forças superiores.

 

A inovação exige conhecimento científico e formação técnica, mas estes elementos são insuficientes sem a audácia de ousar fazer diferente.

 

O célebre estratego militar prussiano Carl von Clausewitz ao definir os elementos da estratégia divide-os entre materiais e morais e inclui nestes últimos a audácia como elemento importante. Sem audácia, constata, um exército fica em séria desvantagem face ao adversário. A excessiva prudência paralisa e oferece a iniciativa ao adversário. Um movimento audacioso sobre um inimigo hesitante garante na maior parte dos casos a vitória.

 

Clausewitz distingue determinação de audácia. Assim, o jovem cavaleiro que salta um precipício para mostrar as suas qualidades é audacioso, em alternativa, o cavaleiro que salta o mesmo precipício para fugir ao inimigo é determinado. Ambos mostram grande coragem, mas o audacioso procura extrair uma vantagem do seu ato enquanto o determinado busca fugir de um perigo maior.

 

O prussiano escreve que se a audácia deve estar presente em todos os escalões do exército, os generais devem temperá-la com uma atitude reflexiva para que não leve a atitudes emocionais sem sentido estratégico. Mas claramente temperar a audácia não significa abafá-la, nem eliminá-la, mas apenas enquadrá-la e colocá-la ao serviço dos objetivos traçados.

 

Também na estratégia empresarial a audácia é um elemento essencial. A capacidade de inovar, de não temer forças superiores, de iniciar movimentos arriscados que possam gerar uma vantagem, deve estar presente em toda a estrutura. Pelo contrário, a hesitação, o temor, a conformidade com o estabelecido e o convencionado, permitem à concorrência aproveitar-se dessas debilidades e vencer.

 

Em Portugal, o tecido empresarial é constituído por muitas micro, pequenas e médias empresas, nascidas da provação e das dificuldades dos seus fundadores, muitas vezes trabalhadores pobres e de escassa formação.

 

A base moral em que a maioria destas sociedades assenta é a determinação e não a audácia. Por isso, logo que saltam o precipício fugindo do adversário, as dificuldades materiais dos seus criadores acomodam-se, definham e estagnam, não conseguindo crescer nem afirmar-se interna ou externamente. Preferem tornar-se subcontratados de empresas maiores do que lutar pelo seu lugar ao sol.

 

A audácia e o espírito de corpo são qualidades morais que se desenvolvem no tempo, com vivência conjunta de experiências arriscadas, com a celebração de vitórias, com justiça e equidade na distribuição dos ganhos, com o encorajamento à proatividade e à iniciativa.

 

Mesmo nas grandes empresas portuguesas a audácia está muitas vezes ausente. A política de precariedade a que recorrem gera, por um lado, o medo permanente do despedimento e, por outro, uma grande rotação de pessoal que não permite desenvolver a audácia nas fileiras nem no topo. Por isso, assistimos à tomada destas empresas por concorrentes estrangeiros.

 

Portugal precisa de passar de uma atitude determinada para uma atitude audaciosa a nível social e económico.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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