Fernando  Sobral
Fernando Sobral 06 de setembro de 2017 às 20:20

A austeridade é imortal?

Segundo a lenda, o sábio Empédocles, favorito dos deuses, atirou-se para dentro do Etna para desaparecer e provar a sua imortalidade.

Pausanias, um seu admirador, foi render-lhe homenagem mas acabou por descobriu um sapato de Empédocles junto ao vulcão, o que o levou a concluir que o sábio era mortal. Em Portugal, mais modestos, não discutimos questões filosóficas como essa. Dedicamos a tentar desvendar uma coisa mais básica: a austeridade é mortal ou imortal? O ministro Manuel Caldeira Cabral, com sentido de missão, confiou ao El País que a austeridade é mortal. Segundo ele: "Acabámos com a austeridade e adoptámos uma política moderada e responsável." A crença do ministro Cabral é digna de louvor. Presume-se que ele acredita no que diz. Só é pena ele não explicar como é que a austeridade pereceu: se com cicuta, se com um punhal nas costas, se por doença do coração, ou simplesmente porque não resistiu ao sorriso do ministro. Cada um acredita no que quer e o ministro Cabral está no direito de ter uma fé. Mas não deve confundir uma crença com a verdade.

 

Todos sabem que a austeridade não acabou. Ela pode ter reencarnado, mas não emigrou. Está aqui. A confusão é esta. O que terminou (e o Governo, nisso, teve sucesso) foi a percepção de que ela já não existe. Foi no campo psicológico que o Governo actual derrotou a oposição, a começar pelos crentes do regresso do diabo. Os portugueses convivem melhor com esta ideia de que não há austeridade apesar de ela continuar por aí como um fantasma. A dívida não se evaporou. Madonna não escorraçou o défice. E estes, em Portugal, são imortais. Perduram há séculos, com mais ou menos botox. Gerem-se. É por isso que a austeridade, como vai provando na prática o ministro Centeno, vai sobrevivendo. Mesmo disfarçada de Pierrot e Arlequim, para animar os portugueses. O ministro Cabral deve ter provas da mortalidade da austeridade. Deve ter ido ao vulcão Etna e voltou cheio de certezas.

 

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5640533 Há 1 semana

Não viver acima das pisses quando os tais posses são miseráveis chama-se austeridade. Muita boa gente ainda não pe4cebeu que Portugal tem ladroes demais para um país tão pequeno e, por estas bandas, a austeridade será eterna.

Mr.Tuga Há 1 semana

Excelente!

Chama-se austeridade "a lá esquerda"....

Anónimo Há 1 semana

A austeridade não é mais do que não se viver acima das posses. Não sei se é imortal mas de certeza que é uma questão de bom senso.