João Costa Pinto
João Costa Pinto 17 de julho de 2017 às 19:47

A banca cooperativa e mutualista - (C)

Permaneço convencido de que o Crédito Agrícola se encontra perante dois caminhos: acentuar a concentração de poderes e de funções na Caixa Central, como tem vindo a ser feito, com perda crescente de autonomia e de estatuto por parte das Caixas locais.

1. A decisão de dedicar alguns artigos à banca cooperativa e mutualista decorreu de dois tipos de razões: por um lado, o movimento de concentração bancária, favorecido pela tecnocracia europeia, está a ameaçar de forma crescente a capacidade das economias mais frágeis para conduzir uma estratégia autónoma de financiamento. Neste contexto, a importância da banca cooperativa e mutualista aumenta, dada a natureza e a origem dos seus capitais e os segmentos de mercado onde tradicionalmente opera; por outro, as nossas mais importantes instituições de raiz mutualista encontram-se claramente numa encruzilhada em relação às respostas que vão ter de dar aos desafios que enfrentam. O Montepio encontra-se a braços com a necessidade de recompor a sua base da capital, sem se afastar da sua raiz mutualista. O Crédito Agrícola com a necessidade de preservar os níveis de autonomia das Caixas locais de que depende em grande parte o modelo de negócio em que historicamente se especializou - a "banca de proximidade". Questões que, por sua vez, dependem da participação das Caixas no governo do grupo, do papel e do modelo de negócio da Caixa Central.              

 

2. Desde a implantação do SICAM - a que me referi no último artigo -, a Caixa Central acumulou uma grande diversidade de funções: estas vão desde o acompanhamento e controlo prudencial das Caixas à gestão centralizada dos excedentes de liquidez e da tesouraria do grupo. Pelo meio, procura desenvolver alguma actividade comercial - muito condicionada pelos níveis de capitalização e por condições de mercado muito adversas - ao mesmo tempo que exerce funções de "holding" e de centro de programação e planeamento do grupo. Como resultado, a gestão da Caixa Central tornou-se técnica e operacionalmente muito complexa e de custo relativo elevado, num contexto em que as transformações do mercado reduziram a já estreita capacidade para conduzir uma actividade bancária autónoma com rentabilidade adequada. Esta evolução tornou mais visível a ambiguidade original do modelo adoptado aquando do lançamento do SICAM e que esteve sempre presente nas relações entre a Caixa Central e as Caixas Associadas: chamada a enquadrar e exercer um controlo prudencial sobre quem é dono do seu capital e alimenta a sua liquidez.

Considerando a complexidade da situação actual, permaneço convencido de que o Crédito Agrícola se encontra perante dois caminhos: acentuar a concentração de poderes e de funções na Caixa Central, como tem vindo a ser feito, com perda crescente de autonomia e de estatuto por parte das Caixas locais. A prazo, esta evolução vai enfraquecer e descaracterizar os princípios fundadores que, em grande parte, suportam e explicam o sucesso e a resiliência da "banca de proximidade". É provavelmente a "via" que o supervisor tende a favorecer no contexto actual. A surpreendente atribuição à Caixa Central da capacidade para se pronunciar sobre a aptidão/idoneidade dos eleitos para as administrações das Caixas é um exemplo da inversão que se tem vindo a operar. Uma coisa seria pronunciar-se sobre a aptidão técnico-operacional e profissional dos quadros, outra é ter o poder de influenciar/controlar os líderes locais a eleger; o caminho alternativo significa a refundação do SICAM, à luz dos desafios e das oportunidades de hoje. Passa por simplificar as funções da Caixa Central, no âmbito de um processo de reorganização da estrutura de governo do grupo, por reorientar e focar o seu modelo de negócio. Questões para outro dia.

 

Economista

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