João Costa Pinto
João Costa Pinto 31 de julho de 2017 às 20:31

A banca cooperativa e mutualista - (CI)

O modelo de negócio da Caixa Central deveria evoluir abertamente no sentido do de um banco de investimentos, dotado de elevada capacidade técnico/operacional e tecnológica, deixando a banca comercial para as Caixas.

1. Com o SICAM, o Crédito Agrícola aceitou um princípio de responsabilidade solidária, criou a Caixa Central e um fundo de garantia com funções mistas (FGCAM) - garantia de depósitos e fundo de estabilização. À data em que este foi implantado, tratou-se de um modelo inovador e visionário que permitiu ao Crédito Agrícola consolidar a sua posição. Foi também uma decisão corajosa, que tornou as Caixas Agrícolas de maior sucesso co-responsáveis pelas que se debatiam com dificuldades. O "contrapeso" foi encontrado atribuindo à Caixa Central funções de enquadramento e de controlo prudencial. Por razões que abordei nos artigos anteriores, as profundas transformações que se estão a verificar na intermediação financeira deviam levar o Crédito Agrícola a "revisitar" o SICAM. Permaneço convencido de que, se nada fizer, o Crédito Agrícola vai acabar por se debater com dois tipos de problemas: por um lado, as Caixas Associadas vão perder cada vez mais autonomia, enfraquecendo a sua principal vantagem competitiva - a "banca de proximidade"; por outro, a heterogeneidade das funções da Caixa Central tornaram-na uma instituição híbrida - "holding", supervisora, centro de planeamento, banco - de gestão complexa, baixa eficiência e custo relativo elevado. O que, a prazo, irá condicionar o nível de competitividade global do Crédito Agrícola, num mercado que se vai tornar cada vez mais concorrencial e agressivo.

 

2. Tendo presente este contexto, deixo uma referência sintética às linhas que deviam orientar um programa de reorganização gradual do Grupo Crédito Agrícola: criação de uma "holding"; recentragem das funções e do modelo de negócio da Caixa Central; criação de um Centro Alargado de Serviços Partilhados; reorganização do FGCAM (*). A "holding" passaria a centralizar as participações no capital das empresas do grupo, incluindo as correspondentes ao capital da Caixa Central. As Caixas Associadas deteriam o capital desta "holding", por onde passariam planos, programas e contas a submeter às assembleias-gerais. O modelo de negócio da Caixa Central deveria evoluir abertamente no sentido do de um banco de investimentos, dotado de elevada capacidade técnico/operacional e tecnológica, deixando a banca comercial para as Caixas. Evolução que significa a ultrapassagem da memória do insucesso em que as Caixas se viram envolvidas. Submetida ao escrutínio da "holding", a Caixa Central manteria a responsabilidade de funções técnicas críticas, em particular o controlo dos principais riscos - créditos especiais, taxa de juro, liquidez. Por sua vez, um Centro de Serviços Partilhados - numa concepção alargada e concebido para reduzir custos - iria absorver algumas funções hoje mantidas no âmbito da Caixa Central. Por fim, reorganizar o FGCAM, à luz da actual legislação e dos interesses do Crédito Agrícola (*). Deste modo, era reduzida a opacidade das funções da Caixa Central e melhorado o nível de escrutínio das Caixas sobre as empresas do grupo. Esta evolução permitiria ainda criar um quadro jurídico/institucional e organizativo mais favorável a uma eventual adesão das Caixas que se mantêm fora do SICAM, bem como a uma eventual entrada na Caixa Central de capital exterior ao Crédito Agrícola.

 

(*) - Questão tratada no excelente trabalho sobre o Crédito Agrícola de Ricardo Cruz e Bernardo Marques - CEGEA:Católica Porto

 

Economista

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar