João Costa Pinto
João Costa Pinto 03 de julho de 2017 às 19:32

A banca cooperativa e mutualista - (XCIX)

A evolução do Crédito Agrícola no último quarto de século, reflecte grandemente os sucessos e os insucessos da acção que esta instituição desenvolveu ao longo de dois eixos.

1. Nos últimos artigos deixei a minha convicção de que o futuro do Crédito Agrícola dependia da sua capacidade para ajustar o modelo de "banca de proximidade", em que historicamente se especializou, às difíceis condições hoje prevalecentes nos mercados financeiros. O que, por sua vez, depende das respostas que este Grupo adoptar para três tipos de questões: o modelo de governo do Grupo; o papel da Caixa Central no contexto do Sistema Integrado; por fim, a qualidade e a eficiência das plataformas tecnológicas e técnico/operacionais partilhadas pelas diferentes áreas do Grupo - Caixas, Caixa Central e Seguradoras. Para compreender a importância desta última questão - a que deixo uma breve referência - basta ter presente que se trata de um Grupo integrado por cerca de oito dezenas de pequenos bancos cooperativos, que tem de responder a exigências prudenciais e regulamentares crescentes - controle de risco, "compliance"(*) e "reporting", níveis de capitalização e de liquidez. Como resultado, as soluções organizativas, tecnológicas e operacionais capazes de dar resposta às solicitações dos reguladores/supervisores, num ambiente de mercado cada vez mais agressivo, assumem neste Grupo grande complexidade e um custo relativo elevado. Já no que se refere às duas primeiras questões - modelo de governo do Grupo e "papel" da Caixa Central - considero que estas vão, a prazo, determinar o futuro do Crédito Agrícola, como projecto autónomo.

 

2. A Caixa Central foi criada em 1984, quando as Caixas Agrícolas procuraram resposta para bloqueamentos que estavam a travar o seu desenvolvimento - em particular, a rentabilização e a reciclagem dos excedentes de liquidez e a participação nos mecanismos de compensação interbancária. Foi no entanto em 1991 que o Crédito Agrícola deu um importante salto qualitativo com a criação do SICAM(**). As funções e a natureza da Caixa Central foram profundamente alteradas, com consequências de grande complexidade. Passou a ser a entidade central do Grupo, com poderes de representação, orientação, enquadramento, fiscalização e intervenção e como Instituição Especial de Crédito, passou a poder operar sobre a generalidade dos segmentos do mercado. Ao mesmo tempo foi consagrado um princípio de responsabilidade solidária, envolvendo as Caixas Associadas e a Caixa Central. A evolução do Crédito Agrícola no último quarto de século, reflecte grandemente os sucessos e os insucessos da acção que esta instituição desenvolveu ao longo de dois eixos: orientação e enquadramento do Grupo e actividade bancária própria. Se, no primeiro, teve uma acção globalmente positiva, no segundo, a crise de 2007 veio reduzir a já estreita margem da Caixa Central para desenvolver uma actividade bancária autónoma. O quadro em que o SICAM foi desenhado alterou-se radicalmente e o Crédito Agrícola - como noutros momentos da sua história - encontra-se perante uma encruzilhada. A tentação - o risco - de que o caminho passe por aumentar o "peso da Caixa Central" é grande, com o inevitável enfraquecimento dos princípios fundadores. Permaneço convencido que esta evolução compromete o Crédito Agrícola como projecto autónomo. Os caminhos alternativos que passam por simplificar as funções da Caixa Central e reorientar o seu "negócio" ficam para outro dia.

 

(*)compliance: conformidade.

(**)SICAM: Sistema Integrado do Crédito Agrícola Mútuo.

 

Economista

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