João Costa Pinto
João Costa Pinto 29 de maio de 2017 às 20:46

A banca cooperativa e mutualista - (XCVII)

Na verdade, o Crédito Agrícola e o Montepio partem de situações que reflectem bloqueamentos e desafios distintos, assim como são diferentes as "vias" que se lhes abrem para lhes responder.

1. A história dos movimentos cooperativos e mutualistas caminhou a "pari passu" com a história do desenvolvimento económico e social de muitas comunidades, regiões e economias europeias. Entre nós este movimento é hoje representado sobretudo pelo Crédito Agrícola e pelo Montepio Geral. Embora ambas criadas e desenvolvidas segundo princípios do mutualismo, trata-se na verdade de duas instituições profundamente diferentes, tanto na sua origem, como organização e funcionamento. Apesar da complexidade da situação actual, a sua importância na sociedade portuguesa transcende a quota de mercado que controlam, por dois tipos de razões: por um lado, pelas ligações que estabeleceram com os seus associados/cooperantes e clientes - no caso do Crédito Agrícola, relações de proximidade sem paralelo no nosso mercado que reflectem o facto de as Caixas Agrícolas "terem nascido" no interior das comunidades que constituem o seu "mercado natural"; no do Montepio, pela sua elevada penetração em grupos sociais urbanos das classes médias que procuravam instrumentos de aforro, crédito e protecção social; mas, por outro lado, ambas as organizações operam com enquadramentos jurídicos e estatutários que até hoje as mantiveram ao abrigo do controlo por parte de accionistas/investidores externos. Adiante abordarei as implicações da recente decisão de "abrir o capital" do Montepio, na linha imprimida pelos reguladores ao seu quadro jurídico. Apesar de operarem tradicionalmente em segmentos de mercado distintos, ambos os grupos estão a ter de reagir e de se adaptar a um contexto económico e regulamentar em mutação rápida e profunda, com um forte impacto sobre os respectivos modelos de negócio. Embora tenham até aqui "beneficiado" de condições de concorrência relativamente benignas, é de admitir que estas se vão tornar mais agressivas, à medida que os bancos concorrentes estabilizem as suas estruturas accionistas e reorientem o seu modelo de negócio. Na verdade, o Crédito Agrícola e o Montepio partem de situações que reflectem bloqueamentos e desafios distintos, assim como são diferentes as "vias" que se lhes abrem para lhes responder. Questões que me proponho abordar em próximo(s) artigo(s).

 

2. Embora o tempo que passou seja garantia de distanciamento, parece-me útil deixar aqui uma declaração de interesses. Até 2012 e durante mais de uma década, fui o responsável executivo do Grupo Crédito Agrícola, como presidente executivo da Caixa Central. Deste modo as minhas opiniões sobre este grupo reflectem tanto o conhecimento que acumulei nesse período, como naturalmente as profundas mudanças que nos últimos cinco anos alteraram a actividade de intermediação financeira. A avaliação, tanto da situação actual, como sobretudo do futuro do Crédito Agrícola, conduz a uma questão: nos dias de hoje, dada a mutação rápida dos mercados financeiros - recuo dos mercados bancários, aceleração da inovação tecnológica, integração dos mercados, novas técnicas e instrumentos da política monetária, mudanças de hábitos das novas gerações - continua a haver lugar para um movimento cooperativo e mutualista? Permaneço convencido que sim, dadas as características da "banca de proximidade" praticada pelas Caixas Agrícolas. Considero, no entanto, que para tal é crucial não enfraquecer o modelo cooperativo e mutualista que historicamente tem alimentado o seu relacionamento com as comunidades locais. Questões para outro dia.

 

Economista

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar