Anatole Kaletsky
Anatole Kaletsky 04 de outubro de 2017 às 14:00

A batalha da Europa em quatro frentes

Tudo o que resta é a Alemanha reconhecer que a sua prosperidade e segurança dependem de uma Zona Euro mais integrada dentro de uma UE mais flexível.

Com as eleições na Alemanha, a Europa chegou ao fim de uma temporada de contínuos sobressaltos políticos. Agora é tempo de agir de uma forma que responda adequadamente aos tumultos criados por todos esses votos.

 

Frans Timmermans, primeiro vice-presidente da Comissão Europeia, descreveu o estado da Europa como "multi-crise": Brexit, refugiados, "democracia iliberal" na Hungria e Polónia, a crise do euro ainda por resolver e os riscos geopolíticos atribuíveis a Donald Trump e Vladimir Putin. Todas estas questões estão a desafiar o "projecto europeu" que começou há 60 anos com o Tratado de Roma.

 

Mas as crises criam sempre oportunidades. E a multi-crise do ano passado produziu uma convergência de oportunidades. Os líderes europeus já não têm desculpa para a inacção enquanto esperam pela próxima rejeição dos eleitores.

 

As reformas económicas em França, a apreensão alemã em relação aos refugiados e ao euro, as novas atitudes em relação à integração europeia em Bruxelas e os sinais de que o Brexit será adiado indefinidamente ou mesmo anulado: todos criaram novas possibilidades para dominar as forças perigosas desencadeadas pelas revoltas populistas do ano passado. Mas entender estas oportunidades exigirá quatro avanços políticos e económicos simultâneos em toda a Europa.

 

França deve agir ao nível do excesso de regulamentação e despesa pública. A Alemanha deve repensar a austeridade orçamental e o dogma monetário. O Reino Unido precisa de uma mudança de direcção no que respeita ao nacionalismo e imigração. E os responsáveis da União Europeia devem abandonar a sua obsessão de conduzir todos os Estados-membros para uma "união cada vez mais estreita", que muitos dos seus cidadãos não querem.

 

Sem avanços simultâneos em todas as quatro frentes, é difícil imaginar progressos em qualquer um dos aspectos da multi-crise. Por exemplo, qualquer flexibilização da austeridade de inspiração alemã exigirá evidências de reformas económicas em França; mas as reformas francesas só terão sucesso se a Alemanha concordar com regras orçamentais mais generosas e apoiar políticas monetárias que beneficiem os membros mais fracos da Zona Euro.

 

Da mesma forma, o Brexit poderia ser evitado ou atrasado indefinidamente se a UE oferecesse uma extensão do período de negociação além de Março de 2019 e sugerisse algumas concessões modestas no que respeita à imigração e ao pagamento de prestações sociais. Mas os líderes europeus só considerariam a possibilidade de oferecer essas concessões se tivessem evidências claras de que os eleitores britânicos estavam a mudar de opinião em relação à saída da UE.

 

Consideremos agora os eleitores alemães que se voltaram contra a chanceler Angela Merkel e os seus parceiros da coligação do SPD, principalmente pelo que consideram ser uma imigração descontrolada e transferências injustificadas para a Grécia. Esses eleitores rejeitarão a integração orçamental e monetária necessária para estabilizar a Zona Euro se acharem que o seu dinheiro será gasto para subsidiar países pobres da periferia da Europa que se recusam a cooperar com os refugiados e não respeitam as leis da UE.

A única forma de convencer os eleitores alemães de que o seu dinheiro não será mal direccionado seria criar instituições políticas separadas e um orçamento separado para a Zona Euro. Esta é a proposta apresentada pelo presidente francês Emmanuel Macron e apoiada em princípio por Merkel. Mas os planos para essa Europa a duas velocidades só podem avançar se Merkel conseguir superar os nacionalistas alemães que desejam acabar com a moeda única e se Macron conseguir silenciar os fanáticos integracionistas em Bruxelas que desejam forçar todos os países da UE a juntarem-se à Zona Euro.

 

À primeira vista, o progresso simultâneo em muitas frentes parece um objectivo demasiado ambicioso. Afinal, se os avanços necessários em França, na Alemanha, no Reino Unido e em Bruxelas fossem um jogo de cara ou coroa, a probabilidade de as quatro moedas darem "cara" seria de apenas 6,25%.

 

Felizmente, existem pelo menos duas razões para descartar esse cepticismo aparentemente lógico. Em primeiro lugar, as decisões políticas e económicas que os líderes em toda a Europa enfrentam agora não são independentes umas das outras. O que acontecer em Paris, Londres e Bruxelas dependerá crucialmente do programa do governo que Merkel negociar com os seus eventuais parceiros de coligação em Berlim. E o acordo de coligação da Alemanha, por sua vez, dependerá das habilidades diplomáticas de Macron na defesa de uma identidade político-económica distinta para a Zona Euro.

 

Igualmente importante, a burocracia da UE terá que abraçar - com entusiasmo - o conceito de uma Europa a duas velocidades. Isto significa abandonar o pressuposto de que todos os membros da UE se dirigem para o mesmo destino e acabar com o tratamento de países não pertencentes ao euro como retardatários de segunda classe.

 

Agora, suponhamos que os líderes da UE reconheciam que a única forma viável de manter a estabilidade e o progresso europeus seria através da adopção do modelo de duas vias ou "círculos concêntricos", com uma Zona Euro mais politicamente integrada cercada por uma confederação económica mais flexível de países que não pertencem ao euro . Nestas circunstâncias, o Reino Unido mudaria provavelmente a sua opinião sobre o Brexit.

 

Caso contrário, o Reino Unido passaria vários anos num limbo de transição e juntar-se-ia quase certamente à Suécia, Dinamarca, Polónia, Hungria e República Checa no anel externo dos países da UE que se opõem à centralização de soberania exigida pelo euro. Essa órbita externa também atrairia a Noruega e a Suíça através da irresistível atracção da gravidade económica.

 

Isto aponta para o segundo motivo para acreditar que os líderes da UE poderiam alcançar avanços políticos e económicos simultâneos em toda a Europa. As decisões necessárias em Paris, Berlim, Londres e Bruxelas não são apenas um lançamento aleatório de uma moeda. Existem fortes incentivos para que os eleitores e líderes políticos de todos os países democráticos tomem decisões que apoiem a prosperidade económica e a estabilidade política, uma vez que se torna óbvio que todas as alternativas são economicamente prejudiciais ou politicamente perigosas.

 

Este é o ponto que os eleitores franceses atingiram em Abril, quando elegeram Macron, e um ponto de viragem semelhante está a aproximar-se rapidamente no Reino Unido, com os riscos e as contradições do Brexit a tornarem-se cada vez mais evidentes. Tudo o que resta é a Alemanha reconhecer que a sua prosperidade e segurança dependem de uma Zona Euro mais integrada dentro de uma UE mais flexível.

 

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Ou seja.... 04.10.2017

...mais um a achar q uns devem viver à conta de outros..