João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 26 de setembro de 2017 às 21:47

A caça a Merkel e a arrogância de Macron

"Dar caça à senhora Merkel", eis uma promessa do líder da extrema-direita, Alexander Gauland, para levar muito a sério porque vai condicionar a política alemã e condenar ao fracasso as ambições de reformas da União Europeia.

O asco à chanceler, acusada de fazer perigar a identidade nacional ao escancarar as portas a migrantes e refugiados muçulmanos, concentrou na Alternativa para a Alemanha (AfD) o voto de protesto, atraindo 1,2 milhões de novos eleitores, desviando cerca de um milhão de anteriores votantes conservadores e meio milhão de sociais-democratas.

 

Presente em 13 dos 16 parlamentos estaduais, a AfD ao conseguir 13% de votação nacional (com uma média de 21% nos cinco estados do Leste que integraram a RDA até 1990) conteve, ainda, nos 9% o eleitorado de esquerda e extrema-esquerda que desde 2007 se congrega em Die Linke, parceiro de governo nos Länder de Berlim, Brandemburgo e Turíngia.

 

A radicalização metamorfoseou o movimento surgido em 2013 nos meios intelectuais contestando a razoabilidade do euro, moeda tida como responsável por disfunções estruturais, numa frente populista em que predominam fúrias xenófobas e racistas.  

 

Acentuar uma oposição nacionalista, reivindicando a pureza de valores alemães, é, de resto, a linha a seguir à custa de cisões de alas menos radicais, a exemplo do que aconteceu com os Verdadeiros Finlandeses ou o Partido da Liberdade austríaco.

 

Para ganhar coesão, a AfD repudiará qualquer compromisso na UE que possa ser visto como diluição de poderes soberanos ou concessão de transferências financeiras à custa do contribuinte teutónico.

 

Nem sequer Os Verdes que seguraram o seu eleitorado (8%) podem ignorar tal retórica a que conservadores e liberais (em alta para os 11%) recorrem com frequência, com a anuência de sociais-democratas.

 

Um eleitorado volátil contribuiu para a pulverização do sistema partidário, confirmando o peso importante de sectores de extrema-direita (à semelhança de França, Holanda e Áustria) o que na Alemanha obrigará a negociar uma coligação inédita a nível nacional entre conservadores, liberais e verdes.

 

Os cristãos-sociais sofreram uma sangria de 11% a favor da AfD, quedando-se pelos 39% (o pior resultado desde 1949), levando o líder conservador em Munique, Horst Seehofer, a declarar prioritária a contenção da extrema-direita nas eleições do próximo Outono na Baviera.

 

Martin Schulz, responsável pelo pior resultado dos sociais-democratas desde o pós-guerra (21%), esgotados por quatro anos de coligação com os conservadores - que do salário mínimo ao casamento para homossexuais adoptaram causas à esquerda -, aventou que a oposição não pode tornar-se exclusiva da extrema-direita.

 

Merkel sofreu uma quebra eleitoral de 9%, quedando-se os conservadores pelos 33%, fracassando no intento de ignorar o desafio da AfD de centrar a discussão política na ressaca da abertura irrestrita de fronteiras no Verão de 2015.

 

Sustentando um imperativo ético de ajuda a refugiados no argumento economicista de que migrantes jovens dinamizariam a prazo uma Alemanha carente de mão-de-obra, Merkel cedo foi confrontada com inépcias administrativas e resistências a quotas de acolhimento.

 

O acto unilateral que Merkel tentou em vão impor a parceiros europeus a braços com potenciais tensões étnicas e reais constrangimentos económicos acabou, por sinal, por dar lugar, em 2016, a um iníquo e periclitante acordo com a Turquia para repatriamento de migrantes, ignorando direitos de refugiados.

 

A extrema-direita ganhou asas e envenenou a negociação entre conservadores, liberais e verdes sobre quotas e qualificações de candidatos a residência e trabalho na Alemanha ou criação e gestão política de um orçamento comum na Zona Euro.

 

Emmanuel Macron nas eleições parciais para o Senado de domingo viu a oposição republicana e centrista confirmar a maioria que detém no Palácio do Luxemburgo desde 2014 e pena para fazer avançar reformas laborais e económicas.

 

Ainda assim, o Presidente francês foi à Sorbonne insistir em planos para uma UE a duas velocidades, com convergência fiscal e social numa Zona Euro de orçamento comum tutelada por um ministro das Finanças, parcerias de defesa, listas transnacionais para deputados ao Parlamento Europeu.

 

As propostas de Macron visando integração política, independentemente do seu eventual mérito, plausibilidade e eficácia, estão condenadas ao fracasso e representam um acto de voluntarismo arrogante.

 

O Júpiter do Eliseu em má hora surgiu a inquinar ainda mais as negociações para uma coligação instável em Berlim quando na CDU os candidatos e candidatas marcam posição para a disputa pela sucessão da chanceler.   

 

Jornalista

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