Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 17 de janeiro de 2018 às 21:50

A campainha

Mário Centeno tomou posse como presidente do Eurogrupo. Recebeu das mãos do seu antecessor uma campainha.

Primeiro visitou o Presidente de França, Emmanuel Macron, e, logo depois, em Berlim, o novo ministro das Finanças da Alemanha. Este, por sua vez, reafirmou a sua fidelidade à linha de Wolfgang Schäuble e acrescentou que a escolha de Mário Centeno era um atestado de bom cumprimento, por Portugal, do programa de ajustamento.

 

O Governo de que Centeno faz parte é apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, que foram, e são, contra esse mesmo programa. Estes partidos não se congratularam com a escolha do ministro português, mas continuam a apoiar o Governo.

 

Tudo isto tem de ser visto dos dois lados: se, de um lado, o PCP e o Bloco de Esquerda não se importam de apoiar o Governo comprometido com a linha Schäuble, Berlim e Bruxelas, por outro lado, também não se importam de que o Governo tenha uma maioria parlamentar integrada por comunistas e extrema-esquerda. Naturalmente, as autoridades europeias têm a obrigação de respeitar as escolhas e as decisões do Parlamento de Portugal, mas é, sem dúvida curioso, que tudo isto se passe com normalidade e naturalidade. A questão é esta: onde estão as diferenças? No peso relativo de impostos diretos versus impostos indiretos? No ritmo das devoluções? Não chegam para dar corpo a uma ideologia. No facto de 50% da TAP ser do Estado? Talvez na reversão das concessões a privados, no setor dos transportes urbanos, se possa notar uma diferença. Nada mais.

 

Esta é, hoje em dia, a realidade das coisas. Não há ideologia ou não se sabe qual é, como sucede com o movimento do Presidente Emmanuel Macron. O Muro de Berlim caiu praticamente há 30 anos e, desde então, do poder da ideologia nada mais restou a não ser a ideologia do poder.

 

O mundo está assim: uma miscelânea de programas. Quando Peter Altmaier diz que vai apoiar a presidência de Mário Centeno, está tudo dito. Um ministro conservador converge com um ministro apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, a campainha vai passando de mão em mão, ou de mão em punho fechado, esquerdo ou direito. É uma mistura do realismo de quem tem mais força política com a força política de quem tem de ser realista. Pelo que me diz a minha experiência recente, mesmo quando há opções programáticas ou estratégicas diferenciadas, o realismo pesa. O problema está nas alternativas e no seu fundamento. Por isso, também, as propostas de mudança são cada vez mais radicais. Quando os partidos mais ao centro ou mais moderados anulam as suas diferenças, isso é inevitável. O que poderá acontecer quando essas diferenças se esbatem nos setores mais distanciados, como neste caso o do Eurogrupo?

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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