Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 15 de junho de 2017 às 20:00

A César o que nós pagamos

Dois episódios desta semana mostram como ainda funciona o poder tentacular do Estado. Há uma longa tradição de que quem captura o poder tem direito de pernada sobre as rendas disponíveis.

Uma herança do já secular caciquismo. E quem paga estas sinecuras são sempre os mesmos. Nós contribuintes, que entregamos impostos em vão e sem proveito os empregos de amigo e de verdadeiros "jobs for the boys and girls".

Se a entrada de um grupo de notáveis para engordar a administração da TAP é a contrapartida da recompra pelo Estado de parte de capital da companhia aérea, eis mais um conjunto de razões para considerar a reversão da privatização total da companhia um mau negócio.

 

Nem está em causa a competência dos escolhidos. Lacerda Machado tem certamente qualidades, mas depois de ter participado enquanto representante do Estado nas negociações, não deveria ter o prémio da administração não executiva.

 

E nenhuma das ilustres figuras escolhidas pelo Estado acrescenta algo à administração da empresa. São apenas prémios bem remunerados e sem muito trabalho, já que são cargos não executivos.

 

O outro episódio é do "emprego-expresso" para a sobrinha de um dos políticos mais poderosos do país, Carlos César, presidente do PS e líder parlamentar na Assembleia da República, um lugar que equivale na actual conjuntura política a ministro de Estado. A família César tem uma longa tradição de emprego público. Contou o jornal i que a sobrinha foi contratada pela empresa pública municipal de Lisboa, Gebalis, sem qualquer entrevista e vai ganhar mais do que 73% dos colegas.

 

A Gebalis é a empresa poderosa que gere um verdadeiro império imobiliário em Lisboa, com as casas de habitação social, mas que tem sido pouco escrutinada. Por exemplo , numa cidade em que as rendas disparam, quantas habitações tem a empresa municipal vagas e sem uso? E quantas pessoas têm casa da Gebalis, tendo habitação própria permanente na Área Metropolitana de Lisboa.

 

Nada de novo aqui no Oeste da Europa, o Estado continua a viver à grande, a distribuir sinecuras, sem cuidar da eficiência e da eficácia do seu serviço. E nós pagamos a César.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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Camilo Lourenço 15.06.2017

Não percam o meu artigo de opinião de hoje, dentro de duas horas. Até já,