Simon Johnson
Simon Johnson 16 de agosto de 2017 às 14:00

A charada do crescimento de Trump

Se aqueles que defendem a redução dos impostos mantiverem as suas ideias e se recusarem a aceitar a realidade, a sua agenda, se for promulgada, resultará num défice orçamental significativamente maior, o que aumentará a dívida nacional para níveis sem precedentes.

Os membros da administração do presidente Donald Trump falam frequentemente sobre elevar o crescimento económico dos Estados Unidos acima de 3%. Mas estão a fazer mais do que falar sobre isso; o orçamento proposto assume que terão sucesso.  

 

Se tiverem, isso representaria uma melhoria significativa em relação ao desempenho recente: a economia dos EUA cresceu, em média, menos de 2% ao ano desde 2000. E, embora um crescimento de 3% possa parecer pequeno, faria uma enorme diferença em termos de emprego e salários.

 

Infelizmente, entregue a si própria, a economia deverá continuar a patinar. E as políticas que o Partido Republicano de Trump propôs - para a área da saúde, impostos e desregulamentação - não farão muita diferença. O pressuposto de maior crescimento é mais uma cortina de fumo contabilística para o corte de impostos do que outra coisa qualquer. Se os membros da administração reconhecessem que um crescimento de 3% ao ano não é viável, deveriam enfrentar a realidade de que as suas previsões de receitas são muito elevadas e que a redução dos impostos proposta, se promulgada, aumentaria drasticamente o défice orçamental e a dívida pública.

 

A economia dos EUA costumava crescer mais de 3% ao ano; na verdade, essa foi a regra na segunda metade do século XX. Desde então, contudo, os EUA foram forçados a enfrentar três grandes constrangimentos.

 

Em primeiro lugar, a população dos EUA está a envelhecer. À medida que a geração do ‘baby boom’ (nascida após o final da Segunda Guerra Mundial) se reforma, a proporção de reformados na população total aumenta. Ao longo do tempo, essa mudança demográfica reduziu o crescimento anual potencial dos EUA, talvez em meio ponto percentual.

 

Os detalhes do que acontecerá com a lei da saúde ainda não são claros. Mas dificultar ou encarecer o acesso dos americanos mais velhos e com rendimentos mais baixos aos seguros de saúde não deverá encorajar as pessoas a trabalhar. A melhor avaliação independente dessas políticas, produzida pelo Gabinete de Orçamento do Congresso (CBO), não prevê nenhum milagre económico - apenas que cerca de 20 milhões de americanos vão perder o seu seguro de saúde.

 

E à espreita estão políticas potenciais que restringiriam a imigração legal. Actualmente, os EUA permitem que, por ano, cerca de um milhão de pessoas em idade de trabalhar obtenham residência e trabalhem no país. Além disso, a tendência dos imigrantes para terem mais filhos do que os não imigrantes faz com que a população dos EUA cresça mais rapidamente do que a de outros países desenvolvidos (por exemplo, na Europa ou no Japão). Portanto, qualquer alteração no sentido de reduzir a imigração anual - alguns republicanos estão a propor 500 mil pessoas ou menos - tornaria o crescimento económico anual de 3% ainda menos provável.

 

O segundo constrangimento económico é o ritmo de abrandamento do crescimento da produtividade. Houve um aumento importante na produção média por pessoa nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma vez que se desenvolveram melhores tecnologias num vasto conjunto de sectores. E houve a esperança, na década de 1990, de que a revolução da tecnologia da informação teria um efeito semelhante. Mas o impacto sobre a produtividade tem sido decepcionante. O livro recente do economista da Northwestern University, Robert Gordon, "The Rise and Fall of American Growth", argumenta que, apesar de todas as evoluções no sector de tecnologia, é improvável que vejamos uma mudança drástica nesta frente.

 

A administração Trump argumenta que, ao reduzir os impostos e "reformar" a lei da saúde, pode aumentar a produtividade - por exemplo, incentivando o investimento de capital. Mas a redução dos impostos que, em breve, estará em cima da mesa deverá assemelhar-se à implementada pela administração do presidente George W. Bush, que não levou a qualquer tipo de boom económico (um ponto que James Kwak e eu analisamos em detalhe no nosso livro "White House Burning").

 

O terceiro constrangimento decorre da crise financeira de 2008. Um perigo inerente à promoção de um crescimento elevado é que é sempre possível espremer uma economia com medidas de curto prazo que incentivem a tomada de risco e a alavancagem no sistema financeiro. A desregulamentação da década de 1990 e do início dos anos 2000 fez precisamente isso, levando a um crescimento ligeiramente maior durante um tempo - e depois a uma queda gigante.

 

Ainda não são conhecidos os detalhes dos planos da administração Trump, mas o mais provável é que vão na direcção do relaxamento dos limites da alavancagem (permitindo assim que os bancos tenham mais dívida em relação ao capital). Qualquer boom gerado dessa forma provavelmente acabará mal - não só uma ruína financeira para milhões de pessoas, mas também uma recuperação longa e difícil.

 

As duas previsões oficiais menos políticas e mais influentes - as emitidas pelo CBO e pelo Comité Federal do Mercado Aberto - prevêem um crescimento de 2%, em média, para a próxima década, e talvez mais para a frente. Assumir um crescimento de 3% é – para dizer de forma simpática - ilusório.

 

Pior ainda, é profundamente enganador - e potencialmente perigoso. Se aqueles que defendem a redução dos impostos mantiverem as suas ideias e se recusarem a aceitar a realidade, a sua agenda, se for promulgada, resultará num défice orçamental significativamente maior, o que aumentará a dívida nacional para níveis sem precedentes.

 

Simon Johnson é professor na Sloan School of Management do MIT e co-autor do livro "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You".

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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