Jorge Marrão
Jorge Marrão 03 de janeiro de 2018 às 20:29

A cirurgia da reinvenção

A incompetência e a desgraça coletivas são mascaradas com os heróis Ronaldos que criamos em diversos setores para aliviar a profundidade dos problemas que temos para enfrentar.

A FRASE...

 

"O ano que começa tem de ser o ano da reinvenção (…) ter a certeza de que as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades."

 

Presidente da República, mensagem de Ano Novo 2018

 

A ANÁLISE...

 

Um país com memória de pobreza, envelhecido, sem império colonial, sem competitividade sustentável à escala europeia, de salários baixos e de baixas produtividades, desprovido de capital e de capitalistas portugueses, envergonhando todos os dias o labor dos poucos capitalistas que nos restam e os empresários em geral, territorialmente desigual, com uma classe política que não assume as responsabilidades pelos erros e fracassos, com produção legislativa e ordens governativas secretamente concebidas para manter aparências reformistas, de defesa do politicamente correto, e de criação de redes de interesses, amigos e simpatizantes, atribuindo culpas ao exterior por tudo e por nada, sectário nas políticas públicas para defender eleitorados e corporações que nos tolhem o futuro, endividado e carregado de impostos, com reguladores formais, que criam burocracias de normas e regulamentos exoticamente modernos para se defenderem do ataque dos media e protegerem a sua função, vivendo em conúbio com estes, dando caixas aos jornais para apontar responsáveis, ao invés de serem esteios de referência, de saber e de produzirem mea culpa às suas incongruências e trapalhadas, dizia que este país não precisa de uma reinvenção: necessitava de uma catarse coletiva, uma amputação dos seus membros mais reacionários e mais situacionistas, seguido de uma cirurgia estética para que nos orgulhássemos em frente a um espelho.

 

A incompetência e a desgraça coletivas são mascaradas com os heróis Ronaldos que criamos em diversos setores para aliviar a profundidade dos problemas que temos para enfrentar. Espalhamos a nobreza da portugalidade no mundo com portugueses excecionais, que em casa não fazem ou não fizeram milagres, mas que consolam a alma e a nação, e nos fazem lembrar quão grandes fomos no mundo. O Presidente da República tem a legitimidade formal para nos avisar do que precisamos de fazer e mudar. Erra quando quer atribuir todas as responsabilidades ao Estado. Foi este Estado, e as últimas configurações políticas, que nos deixaram neste estado. Oxalá que tenha a força anímica e a sageza para nos indicar e estimular para as mudanças, para que não fiquemos a "tertuliar" e a ser constantemente ultrapassados por outras nações.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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