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Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 17 de fevereiro de 2017 às 00:01

A cobardia dos Presidentes no primeiro mandato

O jogo começou há dez minutos. Um jogador atira-se ao adversário e faz falta para cartão vermelho. Há quem, ao lado, diga que não é bem vermelho; é amarelo-alaranjado. O árbitro hesita, marca falta, mas mostra apenas o amarelo.

Não é que ele tivesse dúvidas de que devia ser vermelho. Mas acobarda-se: afinal o jogo começou há dez minutos e atuar com demasiada dureza poderia "estragar o espetáculo", perdendo o controlo da partida.

 

O que acontece a partir daqui é "anybody's guess". Os jogadores tanto podem aprender com a lição (no fundo, sabem que o árbitro podia ter mostrado o cartão vermelho), como podem fazer pior.

 

Assim esteve o Presidente da República no "affair" Caixa Geral de Depósitos. Marcelo poderia ter mostrado, sem hesitações, o cartão vermelho a Mário Centeno. E provavelmente a António Costa, que estava a par da negociação do ministro. Mas Marcelo fez o papel do árbitro temeroso. E, quando desculpou o ministro das Finanças, dizendo que ou lhe apresentavam algo escrito ou acreditava nas suas palavras, estava implicitamente a mostrar que não tinha coragem para ir mais longe. Para não estragar o espetáculo (leia-se saída do país do Procedimento de Défices Excessivos e recapitalização da Caixa Geral de Depósitos)? Não. Nem o país vai à bancarrota se mudar de ministro (o que conta são as políticas, não as figuras), nem a Caixa é um problema: o banco ficou bem entregue e o processo de recapitalização está em curso.

 

Marcelo, como qualquer Presidente no primeiro mandato, não quis chatices: o que aconteceria se tivesse pedido a cabeça do ministro das Finanças? Se, fazendo o que fez, levou tareia de figuras próximas de António Costa (Ascenso Simões por exemplo) e do "ppt" (pau-para-toda-a-obra) do partido, João Galamba, imagine-se se tivesse ido mais longe… Do dia para a noite, passaria a proscrito da Esquerda que tanto o tem elogiado.

 

Pergunta: mas o árbitro (perdão, o Presidente) está naquele lugar para defender a sua pele, ou para fazer o que deve ser feito? Marcelo não é um aprendiz da política. Os seus mais de quarenta anos de vida pública, desde o Parlamento ao Governo, passando pela liderança do PSD, já lhe ensinaram muita coisa. Uma delas é que em política não há gratidão: aqueles que lhe passam a mão pelo pelo hoje, amanhã podem virar-se contra ele. Basta apenas que os seus interesses sejam afetados pelas decisões do Presidente.  Ora é exatamente isso que está a acontecer com o PS: o partido foi apanhado em contrapé no caso Centeno/CGD e não quer admitir culpas no cartório. Que expediente melhor do que atirar-se ao Presidente, insinuando que tem as mãos tão borradas quanto o ministro ("O Presidente está profundamente implicado nisto", Galamba "dixit")?

 

O violento ataque de Galamba não vai abalar a popularidade estratosférica de Marcelo? Provavelmente não. Os Presidentes, a prazo, ganham sempre estes duelos. Mas confirma uma coisa: acabou-se o estado de graça do Presidente da República.

 

Jornalista de Economia

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
surpreso 17.02.2017

Marcelo foi uma criação da Judite de Sousa ,com grande audiência, por causa do lupanar da Teresa Guilherme

Economista2000 17.02.2017


Com tretas ou sem tretas, a pressão financeira aumenta de forma intensamente suave e irá continuar a orientar o ""cernelhamento"" intensamente suave no sentido correcto.

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