Fernando  Sobral
Fernando Sobral 02 de outubro de 2017 às 12:15

A comédia de Passos Coelho

Numa comédia romântica dos irmãos Farrelly, "Shalow Hal", um homem é hipnotizado para que consiga ver as mulheres por fora como se as estivesse a ver por dentro.

Podendo assim descobrir a sua bondade, os seus bons sentimentos. Ou seja, aquilo a que costumamos chamar platonicamente a beleza interior. É assim que o protagonista se apaixona por uma mulher com excesso de peso. Nas autárquicas de ontem era pedido aos cidadãos para diferenciarem a gordura dos discursos e dos programas da formosura dos ideais dos candidatos. Algo que nem sempre é fácil.

Até porque os líderes partidários fizeram das autárquicas um referendo às suas ideias nacionais. Falou-se muito do país, no geral, e pouco das localidades e dos desafios de futuro para tudo o que não se circunscreve a Lisboa e Porto. Portugal vive sufocado pelo Terreiro do Paço, mas todos parecem confortáveis com isso. Por isso, na aritmética básica, aquilo a que todos estavam atentos era à percentagem de votação nacional de cada partido e a quem ganhava as principais câmaras, a começar por Lisboa e Porto. Se todos os líderes estavam sujeitos a sufrágio, o que estava colocado com a cabeça numa guilhotina era Passos Coelho. Algo que pareceu não o incomodar. Talvez porque, desde que lhe tiraram a brincadeira que julgava sua (a cadeira de São Bento), é um político que caminha como um zombie.

Os resultados dizem tudo. Em Lisboa e Porto o PSD tornou-se um pigmeu. E permitiu que Assunção Cristas, uma surpresa nas ruas, se tornasse a líder da oposição. A partir de hoje é ela, e não Passos Coelho, que é o símbolo e a voz da resistência a António Costa. Nada poderia ser mais humilhante para um PSD que Passos queria que fosse uma sucursal neoliberal high-tech e voltou a ser um partido mais rural. Alguém está a mais: ou o PSD profundo ou Passos. A partir de agora muitos considerarão que é ele. Ninguém vislumbra onde está a beleza interior do PSD forjado por Passos. A sua gordura ideológica não resistiu à era pós-austeridade.