Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 22 de janeiro de 2017 às 17:49

A concertação sem conserto

O PS acusa o PSD de "desrespeitar a concertação social", como o PSD acusou o PS em 2015 de "desrespeitar a concertação social". O conselheiro de Estado e comentador Marques Mendes diz que o PSD está a desferir "uma machadada na concertação social".

E o secretário-geral da UGT lança a pergunta: "Como é que o PSD vai encarar no futuro a sua relação com os mesmos parceiros em quem vem dar uma machadada final?" A resposta é fácil: vai encarar nas calmas.

 

É assim porque o PSD, como o PS, sabe que o (alegado) desrespeito pela concertação social não tem consequência - sabe, por experiência própria, que os parceiros sociais são sobretudo legitimadores de opções políticas tomadas muito antes de chegarem à concertação. Vemos isso na história desde que a concertação foi criada em 1984 (sem a CGTP), numa altura de crise profunda e contestação social dura em que Mário Soares, pragmático como sempre, precisava urgentemente de legitimar a sua política de austeridade. Talvez por isso não ouçamos grande lamentação nem por parte do Bloco, nem sobretudo do PCP, pelos "desrespeitos à concertação".

 

Dada a frequência com que vemos os parceiros sociais nos media podemos perguntar por que razão essa influência mediática não se traduz na realidade. Em primeiro lugar porque os parceiros têm uma fraca representatividade no terreno. A primeira tese de mestrado a receber 20 valores na Faculdade de Economia da Nova, de Hugo Vilares, punha com números de 2012 em 10% a taxa de sindicalização no sector privado: isto põe em menos de 100 mil pessoas os associados da UGT e em menos de 300 mil os da CGTP (números a que se somam os funcionários públicos, importantes para a CGTP). Sobre as associações patronais, os economistas do trabalho, incluindo Pedro Martins, ex-secretário de Estado da área, dizem que representam também poucas empresas, embora não saibam identificar a percentagem uma vez que não há dados públicos.

 

A esta fragilidade soma-se a dependência financeira. Está por descrever de forma exaustiva a relação económica que todos os parceiros sociais têm com o Governo, entre fundos para formação de dirigentes, fundos para formação profissional e por aí fora (a Fundação Francisco Manuel dos Santos ponderou avançar com esse trabalho de análise, mas creio que acabou por abandonar a ideia).

 

Quando não se tem força no terreno, quando se é financiado em parte pelo Estado e quando não se tem fortes recursos técnicos para debater com o Governo percebem-se melhor os episódios como o da TSU. Os líderes das associações patronais aceitam assinar à pressa um documento - levado por um motorista do Governo de porta em porta - quando sabem que não há condições políticas mínimas para que esse documento tenha aplicação prática. Na hora de cobrarem a contrapartida dada pelo Governo sem as devidas garantias (a baixa da TSU), para compensar uma medida decidida por esse mesmo Governo (a subida do salário mínimo), os parceiros sociais responsabilizam o partido da oposição - e nem por uma vez criticam o Governo por, no fundo, lhes ter vendido gato por lebre na concertação.

 

O jogo do "diálogo social" - com a excepção da CGTP - é tirar umas contrapartidas financeiras aqui e ali e ir pela música de quem manda. Todos os governantes sabem isto, incluindo o perspicaz Augusto Santos Silva - o caso da TSU confirma, de resto, quão certeira foi a figura de estilo que usou para descrever a concertação.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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comentários mais recentes
alblopes 23.01.2017

Que artigo mais pertinente, Bruno! Mais clarinho do que a água! E veja bem:estes "comissários" das entidades patronais, não são mais do que marionetes! O caso mais flagrante é o da CIP. O sr. Saraiva, se tivesse um pouquinho de vergonha, já se tinha demitido! O da CCC, esse sempre foi apoiante da geringonça, mas o Sr. Saraiva:que grande empresário ele me saiu:vão a Arruda dos Vinhos e vejam com os vossos olhos, como se destroi uma empresa que, para sobreviver, tem de andar a pedinchar agora a este desgoverno, como já tinha feito com o governo de Passos! Uns tristes!

Mr.Tuga 23.01.2017

Certíssimo!

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