Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 10 de maio de 2017 às 21:14

A coragem de não inovar 

Estou convencido de que Macron ganhará mais se continuar a ser corajoso e será penalizado se começar a tentar fazer o género de espargata política, tentando agradar a quase tudo e a quase todos.

Emmanuel Macron ganhou quase que não inovando. Não quero ser injusto, mas ganhou defendendo quase só ideias antigas, ideias muito atacadas, ideias aparentemente "fora de moda" ou ideias consideradas em muitos círculos como impopulares. Macron não defendeu o protecionismo, defendeu os mercados abertos, a globalização. Não falou contra a Europa, disse que é preciso mais Europa, aprofundar a União Europeia. Não foi por vias populistas, insistindo na necessidade de flexibilização da legislação laboral e também de diminuir significativamente o número de funcionários públicos. Macron não mostrou nenhuma simpatia pelas ideias de Trump ou pelos fundamentos do Brexit. Macron demonstrou que é possível ganhar sendo coerente e sendo fiel a convicções. Terá sido, em certa medida, uma vacina anti-Trump de que eu tenho falado amiúde? Admito que sim. Mais uma vez, o povo de um Estado europeu disse que não às ideias que têm estado em "alta" em diferentes sistemas políticos e em diferentes processos eleitorais. Só esse facto dá muito que pensar e constitui, talvez, mais uma lição daquelas que França, de tempos a tempo, dá ao mundo. E mais curioso ainda é que ele defendeu essas ideias antigas, mas com base numa força política nova. Ou seja, ele rejeitou as organizações políticas tradicionais, mas defendeu ideias com que muitas daquelas concordam. Teve também a coragem de dizer a Donald Trump, pelo que se soube, que não concordava com as posições do Presidente norte-americano em matéria ambiental e que iria continuar a defender a Declaração de Paris. Teremos agora a 11 e 18 de junho eleições para a Assembleia Nacional e para o Governo. Só que em França, em princípio, e normalmente em fim, quem governa é o Presidente. Macron diz que irá revelar o nome do primeiro-ministro depois da tomada de posse, que acontecerá já no domingo. Ou seja, entrará na fase em que tem de dizer ainda mais ao que vem. Não será fácil, escolher um primeiro-ministro que agrade a todo o eleitorado que votou nele. E recorde-se que entre abstenção e votos em branco, 40 por cento do eleitorado não quis nem a ele nem a Marine Le Pen.

 

Estou convencido de que Macron ganhará mais se continuar a ser corajoso e será penalizado se começar a tentar fazer o género de espargata política, tentando agradar a quase tudo e a quase todos. Corra tudo muito bem em França, ou nem por isso, a verdade é que é deste país que, no centro da Europa, estão a nascer sementes de renovação do sistema político e dos seus protagonistas. Se Macron ganhou com ideias antigas e pondo de lado os partidos tradicionais, é porque os eleitores não estão zangados com essas ideias, sentem-se é distantes de quem as tem levado a cabo.

 

A área de formação, o tipo de currículo e o seu percurso profissional podem ser também os mais ajustados para esta fase da vida da União Europeia. De qualquer modo, sublinhe-se a nota de que é impressionante a renovação de dirigentes políticos nas democracias ocidentais que aconteceu nos últimos meses. Saíram Obama e David Cameron e agora sai François Hollande. A única que talvez continue, como já referi num artigo de há uns meses, será a líder alemã. Mas daqui até setembro ela terá de compreender também os ventos que sopram. Os povos têm demonstrado querer mudar ou de ideias ou de protagonistas. Na Holanda manteve-se o mesmo chefe de Governo, mas com uma perda significativa de apoio. Na Alemanha, a senhora Merkel pode querer defender um projeto semelhante àquele que inspira Macron, só que ela já está há muitos anos no poder. É verdade que a economia alemã está numa fase muito positiva, ao contrário de França, mas se a senhora Merkel não quiser ser substituída pelo senhor Schulz, tem de fazer muito bem a gestão deste equilíbrio entre a coerências e as vontades e renovação.  

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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