Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 19 de dezembro de 2017 às 21:05

A corrupção e o anjinho

A corrupção, simultaneamente causa e consequência do subdesenvolvimento e da dependência, é uma grande inimiga do crescimento económico.

A corrupção desloca a correta atribuição de investimento, desvirtua as prioridades sociais, destrói o esforço de concorrentes, desbarata recursos escassos, torna inútil o exercício de Marketing dos restantes atores do mercado.

 

Para que a corrupção se possa instalar são necessários, como na combustão, três agentes, todos igualmente nocivos. Na combustão ou queima, conhecida reação química, é imprescindível a presença de uma substância que arda, o combustível, e um oxidante, ou comburente que permita a libertação de calor e luz. Mas é também necessário um catalisador que provoque o aumento de temperatura do combustível.

 

De igual modo a corrupção necessita de um corruptor e de um corrupto mas para que ocorra é indispensável a presença de um ou mais anjinhos em posições chave.

 

Sem os anjinhos, pessoas sérias e honestas, mas preocupantemente ingénuas, que estão presentes, conferem credibilidade ao par criminoso, mas de nada se apercebem, assinam de cruz os documentos que lhe põem à frente, não ouvem e não veem, o ato de corrupção seria impossível.

 

Por isso o anjinho é tão perigoso. É ele que pela sua confiança exagerada, pela sua credulidade, fornece o ambiente propício ao desenvolvimento da corrupção. Não fosse ele anjinho e estaria na posição certa para detetar o crime e de o impedir ou denunciar.

 

A presença de anjinhos nos órgãos sociais de instituições permite que as maçãs podres atuem em roda livre, apropriando-se indevidamente dos bens coletivos. Os anjinhos cheios de inocência confiam cegamente nos que os instalaram nas funções, não se apercebendo que aí foram postos devido não às suas qualidade técnicas ou de gestão mas unicamente pelas suas angelicais características.

 

Os anjinhos em posições de responsabilidade, em empresas, instituições ou no governo, são extremamente perigosos e não devem ser tolerados, antes afastados o mais depressa possível, porque à sua volta só pode grassar a corrupção e nepotismo. Eles são o carburante da corrupção, reação química que só pode ocorrer na sua presença.

 

Os anjinhos devem então ser sistemática e impiedosamente substituídos por pessoas igualmente honestas, mas de índole mais conhecedora da espécie humana e da sua tendência para, se não controlada, entrar por caminhos duvidosos. Por pessoas que sendo capazes de confiar no próximo e de delegar responsabilidades, sejam igualmente capazes de desenhar mecanismos de controlo que impeçam que alguns consigam, desvirtuando a confiança neles depositada, cometer atos reprováveis.

 

Não se dúvida da honestidade, boa vontade, probidade dos anjinhos, sabemos que faz parte da sua personalidade, do seu carácter, o que não devemos é tolerar que assumam funções de responsabilidades de gestão ou políticas.

 

Mais do que com longos processos judiciais, que são necessários, mais do que com grandes investimentos em forças policiais, igualmente indispensáveis, a luta contra a corrupção ganha-se com a erradicação dos anjinhos.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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