Fernando  Sobral
Fernando Sobral 05 de outubro de 2017 às 18:40

A crise anunciada do PSD

Durante mais de uma geração aquilo a que os europeus chamaram social-democracia e que os americanos chamam liberalismo foi a crença ideológica dominante no Ocidente.

Nele, o Estado social era o coração que alimentava este pensamento. Provava a possibilidade de as sociedades mudarem sem revoluções e implicava o triunfo da democracia, assente numa sólida classe média. Hoje ser liberal na Europa é sinónimo de neo-liberalismo. E, depois da "terceira via" de Tony Blair, muita da social-democracia mais à esquerda, ao tentar reconquistar o centro político, criaram uma espécie de "sociais liberais", adoptando políticas liberais na economia.

 

Os anos da austeridade trouxeram à Europa um liberalismo mais puro e duro, com a contracção a pontapé do Estado social e das políticas e serviços públicos e a crença que o individualismo e o mercado resolveriam tudo. Em Portugal, depois do desvario de Sócrates, esses ideais ganharam terreno sólido para se desenvolver. Ao mesmo tempo essas políticas serviram para um recentramento do poder, que nos anos do cavaquismo, tinham fugido da linha Estoril/Cascais para uma classe que, vinda do interior, tinha aproveitado o elevador social para ocupar o poder político.

 

Passos Coelho foi o símbolo deste momento crucial em que as políticas asfixiantes de austeridade (teoricamente aplicadas a partir de princípios da troika mas que nos bastidores foram cozinhadas por negociadores nacionais) se impuseram em Portugal, de duas formas: como política económica e como ideologia diária.

 

Passos Coelho foi central nesta política de desmantelamento não apenas do frágil e burocratizado Estado social português mas também nos consensos sociais que tinham permitido algum contrato de convivência na sociedade nacional. O seu "liberalismo" tornou Portugal um território onde não eram "todos por um" mas "todos contra todos" (jovens contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores do Estado contra os do provado). Tentou também utilizar um temível conceito de "destruição criativa" onde o modelo era o dos países exportadores do sudeste asiático, ode o que importa é o factor capital e o factor trabalho é totalmente desvalorizado (e, com isso, destruindo-se a lógica de que o trabalho é também algo ético, em que as pessoas se podem reconhecer).

 

Estes princípios levaram-nos para um PSD ainda numa crise de identidade e volúvel, porque nunca teve uma ideologia constante. A tentação de destruir o resto do partido autárquico e do interior para o transformar num movimento "high-tech" urbano, foi assim assumido como lógica. Isso corroeu o PSD, que também não tirou as ilações da vitória estratégica de António Costa e dos anos de "novo discurso" que se lhe seguiram, onde a esperança substituiu o conceito de culpa que Passos Coelho tornou a fé dos portugueses. Preso num mundo que, para ele, não tinha mudado, Passos, mesmo sem perspectivas de vir a fazer algo para além da sua carreira de líder político, acabou por ter de se confrontar com a realidade. Sai de cena. Resta saber se o PSD encontra outra vez a sua alma. 

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Anónimo Há 2 semanas

A democracia perdeu um partido social democrata, porque deixou de veicular um ideário coerente com a sua matriz identitária. Ou vai ter lugar uma grande varridela e ascende alguém mais estruturado politicamente, ou os yesman de PPC vão afundar definitivamente o partido, provavelmente a crédito do CDS, como ocorreu já em Lisboa, nas eleições de 1 de outubro.