Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 28 de setembro de 2017 às 20:31

A crise no SNS que ninguém quer resolver 

Portugal não está em crise, mas há crises em Portugal. A da Saúde é uma delas. A resolução dos problemas de fundo nesta área prioritária só é possível com escolhas duras que ninguém neste ciclo político quer assumir.

Há uma greve de enfermeiros especialistas em obstetrícia que dura há mais de um mês e que tem levado os médicos a acumularem esse trabalho. Há pelo menos seis greves de profissionais de saúde - médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico - convocadas para Outubro. Há administrações hospitalares sem dinheiro para substituírem equipamentos e sem dinheiro para pagarem salários até ao final do ano, despesa que acabará por sair da dotação provisional do Orçamento do Estado. Há hospitais públicos que racionam coisas tão básicas como almofadas e lençóis. Há mais cirurgias do que nunca, mas o tempo de espera para cirurgias não abate. Há medicamentos inovadores que não entram no SNS. Há uma pilha crescente de 1.600 milhões de euros de dívida vencida à indústria farmacêutica.

 

Portugal não está em crise, mas há crises em Portugal. A da Saúde é uma delas, talvez a mais importante. O lado mais imediatista dessa crise é o levantamento geral de quem trabalha no sector e que levou um secretário de Estado da Saúde esta semana a confessar ser "um tormento" governar a área. Parte do tormento é fruto da conjuntura e da mensagem política. O défice orçamental caminha para mais uma surpresa, o ciclo é de "reposição de rendimentos" e as reivindicações, justas, repetem-se em catadupa às portas do debate parlamentar do Orçamento do Estado para o próximo ano.

 

Mas o problema de fundo não está aqui. O secretário de Estado, aliás, foi mais longe do que o "tormento" e pôs eufemisticamente o dedo na ferida: "Os recursos na Saúde são insuficientes para responder a todas as solicitações, de doente e profissionais." Lendo este "todas" podemos pensar que se está a pedir este mundo e o outro, mas não é assim. Os recursos hoje não chegam para motivar quem trabalha na saúde pública, para manter os melhores profissionais na esfera do Estado, para evitar pagar medicamentos mais caros por causa dos atrasos na dívida (os juros vão no preço) e, sobretudo, para tratar os portugueses.

 

O problema central é a crónica suborçamentação da Saúde, a que se juntou o aperto sob a troika. Todos os anos, incluindo com o actual Governo, o Ministério das Finanças transfere menos do que o sector precisa para tratar cada vez mais doentes - os défices repetidos da conta do Serviço Nacional de Saúde e os problemas concretos no terreno são disto provas eloquentes. O problema tenderá a agravar-se com a tendência que sabemos ser imparável: o envelhecimento da população portuguesa. A pressão sobre a despesa vai aumentar muito.

 

Quem espera que o crescimento económico gere receita para financiar as necessidades da Saúde hoje e no futuro está a iludir. A resolução gradual dos problemas de fundo nesta área prioritária só é possível mexendo no financiamento do SNS, combatendo a fraude e o desperdício nos hospitais e, sobretudo, redistribuindo para a Saúde dinheiro de outras áreas menos prioritárias.

 

Nas próximas semanas, o Governo vai espalhar creme hidratante sobre a ferida, sob a forma de um reforço do orçamento da Saúde. Vamos ouvir falar da "aposta deste Governo no SNS", como vamos ouvindo aqui e ali pedidos para "pactos na Saúde" ou para a "refundação do SNS". Mas um reforço não é uma solução estrutural e estes "pactos" são retórica inconsequente - não porque sejam desnecessários, mas porque implicam escolhas duras que ninguém neste ciclo político está disposto a assumir. A saúde pública está em crise e assim continuará, por tempo indeterminado.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

Nesta quarta feira dia 27 Setembro houve uma reuniao com os medicos do centro de saude e foram informados que estavam proibidos de atender doentes entre as 8H e as 11H. Porque quantos mais doentes atendessem mais dinheiro gastavam ao Estado. Diziam os medicos... isto nao dizem eles as pessoas.

Anónimo Há 2 semanas

porque comentario nao foi Publicado ????????????????????????