Paulo Carmona
Paulo Carmona 25 de janeiro de 2017 às 20:55

A crise, pois claro

Os irlandeses, tal como quase todos os países europeus, afastados pela dita crise, recuperaram totalmente os seus rendimentos e riqueza e… não voltaram. E agora?

A FRASE...

 

"Vale de Lobo foi vítima da crise, mas 'ainda pode gerar muito valor'."

 

Faria de Oliveira, Negócios, 25 de janeiro 2017

 

A ANÁLISE...

 

O período de 2001 a 2014 foram treze anos de azar, com talvez a maior destruição de valor que Portugal já assistiu na sua longa História. Estamos a falar de desvalorizações maciças de ativos, resgates de bancos, perdas em aplicações financeiras por particulares e empresas, etc. Seja para onde olharmos, vemos vestígios e consequências dessa devastação financeira.

 

E não culpemos a crise pelas más decisões originárias nesse período. A crise apenas veio destapar um país pobre e sem crescimento fazendo vida de rico com um cartão de crédito UE de "plafond" quase ilimitado.

 

Tudo isto é conhecido, mas frases como a apresentada são tristemente vulgares por parte dos atores desse processo. Ninguém assume nenhuma má decisão, sofreu influências ou conhecia processos e negócios suspeitos. É um basismo generalizado e, claro, a responsabilidade é da crise. O problema é que estas frases são provavelmente ditas com convicção. Reparem na CGD armada em promotor imobiliário de luxo, com crédito e participação no capital, num projeto orientado para o mercado irlandês… e apresentado como se isso fosse absolutamente normal num banco público. E nós a pensarmos em PME, criação de emprego, melhoria das condições de habitação dos portugueses ou, mais prosaicamente, na proteção dos depositantes… este e outros negócios, com os 5 mil milhões que os contribuintes irão lá colocar, fazem mais pela ideia de privatização da CGD do que enxurradas de liberalismo. Entretanto os irlandeses, tal como quase todos os países europeus, afastados pela dita crise, recuperaram totalmente os seus rendimentos e riqueza e… não voltaram. E agora?

 

A nossa verdadeira crise é de consciência e, enquanto ouvirmos frases destas e persistirmos neste encobrimento e desresponsabilização, não conseguiremos sair do passado e dos maus vícios que aqui nos trouxeram. Um alcoólico só se trata se reconhecer a sua doença…

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
5640533 29.01.2017

fazem-nos de tolos...

Anónimo 26.01.2017

Pois Pois -MrTuga até parece que o comentador está normalmente preocupado com as falhas da justiça... Lérias ... o problema aqui é que a CGD foi durante anos um instrumento dos negócios dos amigos dos governantes... a CGD e outros bancos privados ou já esquecemos os negócios do PSD no BPN...

Mr.Tuga 26.01.2017

Certissimo!

mas, em tugaLândia dos atrasados, são todos INIMPUTAVEIS....