Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 14 de agosto de 2017 às 21:25

A cultura de empresa

Na última semana, defendi aqui a necessidade de as empresas alinharem o sistema de incentivos com a matriz cultural nacional com vista a aumentarem a sua eficácia.

Na sequência desse artigo, recebi de um gestor bancário que muito respeito pelo seu profissionalismo e integridade uma nota referindo que, além dos aspetos culturais próprios de cada país, existem outras variáveis tão ou mais importantes que há que levar em consideração. Tem, evidentemente, toda a razão.

 

Uma dessas variáveis que não abordei é a cultura da empresa.

 

A cultura da empresa é um dos mais relevantes e poderosos motivadores dos trabalhadores. Mas de que se trata? O que queremos dizer com cultura de empresa?

 

A cultura de empresa é um conjunto de valores partilhados pela grande maioria dos colaboradores de uma empresa e que dão significado ao trabalho que aí é desenvolvido.

 

Num trabalho recentemente publicado no Journal of Economic Behavior & Organization, dois investigadores, DanaChandler e Adam Kapelner, promoveram a seguinte experiência através do Mechanical Turk, um sítio de trabalho temporário da Amazon. Recrutaram mais de 200 pessoas para uma tarefa de curto prazo a desenvolver em casa, sem contacto umas com as outras nem com a empresa requisitante.

 

Neste ambiente, é difícil criar uma cultura empresarial pelos meios tradicionais, nomeadamente pelo exemplo das chefias ou pela partilha de experiências e vivências.

 

A tarefa em causa era a da classificação de uma imagem. Assim, cada pessoa recebia uma imagem e devia analisá-la e classificá-la de acordo com regras precisas. Os trabalhadores eram pagos por imagem. O interesse de cada um era o de processar o maior número de imagens no menor tempo possível maximizando o seu ganho.

 

A um grupo de trabalhadores foi-lhe simplesmente explicada a tarefa e nada mais, a um segundo grupo foi explicado que se tratava de uma pesquisa sobre cancro e que as imagens eram de tumores e que eles estavam a contribuir para uma possível pista conducente à cura desta terrível doença.

 

Ao fim de algum tempo, as conclusões eram claras. O grupo que trabalhava sem contexto conseguia uma maior produtividade em termos de processamento de imagens por hora, mas o segundo grupo, que valorizava o objetivo do trabalho e se orgulhava de contribuir para uma causa nobre, acabava por desenvolver um trabalho de maior qualidade, menos erros, acabando inclusivamente por receber menos.

 

Eis o impacto da cultura na motivação: um maior envolvimento, uma maior qualidade de trabalho, uma aceitação de uma retribuição menor (neste caso porque ao levar mais tempo a processar cada imagem o colaborador nas oito horas de trabalho acabava a receber menos do que os seus colegas do outro grupo).

 

Vemos assim que a cultura de empresa, a atribuição de significado positivamente valorado ao trabalho, é uma poderosa forma de motivar os trabalhadores sem envolver, necessariamente, custos adicionais.

 

Assim, diremos que, além da necessidade de as empresas alinharem o sistema de incentivos com a matriz cultural do país em que laboram, outras variáveis, tão ou mais relevantes, devem ser tidas em conta, nomeadamente a cultura da empresa que, em muitos casos, funciona ela própria como um forte motivante.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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