Baptista Bastos
Baptista Bastos 06 de janeiro de 2017 às 10:29

A derrota dos princípios

O pensamento foi derrotado e desfeito, a troco da venda ou do aluguer do próprio carácter.
Nada parece travar a sanha do Daesh contra as sociedades ocidentais ou suas, historicamente, associadas. O ano que passou foi um caudal de violência e, apesar da aparente queda de Alepo, a miséria moral e conceptual persiste. O que restou foi a imagem medonha de uma guerra ilimitada, sem regras e desprovida de qualquer sentido de humanidade. Tudo indica que esta violência insana e, aparentemente, sem sentido vai prosseguir, um pouco pela Europa, sem que a Europa demonstre o mais leve sentido de acabar com a terrível pouca-vergonha.

A aliciação feita a imensas camadas jovens amedronta todos aqueles que se julgam a salvo da ameaça. Mas a verdade é que o mundo está em guerra, uma guerra cuja enunciação é uma espécie de regresso ao passado, e de vingança pelo ocorrido há séculos.

A crise das instituições e a crise dos governos (o caso de França e a tibieza moral do seu dirigente François Hollande são particularmente eloquentes) conduzem os povos a uma perplexidade sem nome. Manifesta-se a derrota dos princípios, e a ascensão de relações de poder que reduzem a nada os mais salientes padrões morais e sociais. A guerra do Daesh é uma guerra de princípios sórdidos, como temos visto em diversos programas de televisão. As degolações e o terror infundido inserem, nesta agonística, um novo capítulo do medo. E deixa-nos indignados com a indiferença amplamente demonstrada pela União Europeia, mais propensa a analisar o mundo pela "moral" económica do que pela eficácia das soluções que, afinal, não apresenta.

Alguns dos princípios que inspiraram as nossas oposições éticas foram dizimados e, até, ultrajados pelo comportamento de muitos ex-dirigentes da União Europeia que se bandearam, com ordenados e posições sociais inenarráveis. Estou a pensar, claro, naquele português, ex-dirigente de uma das extremas-esquerdas nacionais, cuja trajectória é a desgraçada vergonha de quem a tem. O pior de tudo são as poderosas companhias, como a Goldman Sachs, sempre dispostas e pressurosas a contratar tipos desta natureza e feitio.

A contrademocracia apoia-se neste género de gente sem vergonha, que constitui quase um exército desprovido do sentido da nobreza e da honra, e disposta a todo o género de bandalhices. Eis porque o que tem feito de nós seres éticos e políticos está a desaparecer. Repare-se, por exemplo, no que tem acontecido em França, onde a implicação de cada um no assunto público havia criado uma grande geração de pensadores e de críticos, que fizeram escola e animaram o pensamento europeu, com uma generosidade sem mácula.

Hoje, ao que parece, o dolo e a manigância somos quase todos nós. Caídos na aparente facilidade concedida por uma sociedade sem grandeza nem objectivo e, sobretudo, sem leis éticas, o pensamento foi derrotado e desfeito (como se tem verificado) a troco da venda ou do aluguer do próprio carácter.

O que ocorre, na Europa e no resto do mundo, é a sobrevalorização do pensamento segundo o qual o importante é a maneira de conduzir os comportamentos. Adquirindo-as, se for preciso para essa estratégia, a troco de dinheiro e de lugares excepcionalmente remunerados.



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comentários mais recentes
Deuladeus 06.01.2017

O dinheiro é que manda. As pessoas vendem-se, algumas miseravelmente, para pagarem as contas, outras pomposamente, para mostrarem aos outros quão idiotas são. Veja os documentários dos que vivem no Alaska e logo vê a diferença em ser íntegro ou andar a depilar as pernas e o peito.