João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 12 de setembro de 2017 às 20:10

A desgraça da Senhora

A miséria, a perseguição e o abandono de camponeses muçulmanos nos confins da fronteira entre Myanmar e o Bangladesh disputam a atenção do Conselho de Segurança da ONU e desgraçam a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi.

Mais de 350 mil muçulmanos refugiaram-se no Bangladesh depois de ataques a postos de polícia a 25 de Agosto por militantes do Exército de Salvação Arakan Rohingya (ESAR) levarem o exército de Myanmar a lançar uma campanha para "extirprar terroristas".

 

No estado de Rakhine, conflitos entre muçulmanos e budistas em 1991-92 e a partir de 2012 já tinham propiciado intervenções militares e causado a fuga de cerca de 300 mil pessoas para o Bangladesh e, através do Golfo de Bengala, Tailândia e Malásia.

 

O ESAR, criado após os confrontos de 2012, reivindica um estatuto de "minoria étnica" para os muçulmanos de Rakhine, essencialmente camponeses oriundos do Sudeste do Bangladesh.

 

As demais comunidades islâmicas de Myanmar residentes em centros urbanos, com múltiplas origens da Índia à China, são alheias a tal reivindicação que exacerba o influentíssimo nacionalismo chauvinista da maioria bamar (birmanesa) assente na exaltação das virtudes budistas.

 

Em Rakhine, concentra-se, contudo, a maioria dos muçulmanos de Myanmar que constituem, no conjunto, cerca de 3 a 4% dos mais de 50 milhões do multiétnico e plurirreligioso estado de maioria birmanesa e budista.

 

Ao enveredar pela luta armada numa região onde, do subcontinente indiano aos arquipélagos das Filipinas e Indonésia, passando pela Tailândia e Malásia, estão activos bandos jihadistas sunitas, o ESAR lança o alarme.

 

No estado do Noroeste onde os budistas rakhine ou arracaneses não chegavam a constituir mais de metade dos cerca de 3 milhões de habitantes antes das violências desta monção, os militantes muçulmanos auto-identificam-se como rohingya: o topónimo Rakhine no dialecto bengali local.

 

A denominação étnico-religiosa foi adoptada na década de 50 do século passado e era desconhecida no ancestral Arracão, um domínio budista do sultanato de Bengala explorado por mercadores, padres e mercenários portugueses no século XVI e XVII.

 

A minoritária presença muçulmana, oriunda do subcontinente e da Pérsia, continuou a fazer-se sentir depois da conquista birmanesa em 1785.

 

O poder britânico impôs-se a partir de 1826 e, dos finais do século XIX a princípios do século XX, permitiu a fixação de migrantes bengalis muçulmanos em Rakhine.

partilha do Raj em 1947 deixou sem cobertura política na Birmânia (independente em 1948) os muçulmanos que ficaram a leste do Paquistão Oriental (Bangladesh após a secessão de 1971).

 

Num dos mais pobres estados de Myanmar (conforme a denominação da Birmânia adoptada em 1989), era fatal a luta entre muçulmanos de origem bengali, além de comunidades islâmicas mais antigas, e rakhines budistas por recursos escassíssimos agravada pelo desinvestimento do poder central.

 

O conflito assumiu, por vezes, contornos violentos, mas sem as características secessionistas das guerras envolvendo o estado central, controlado pelos bamar (birmaneses), e as minorias étnicas karen, kachin, shan ou chin.

 

Uma lei de 1982, entretanto, privou da nacionalidade da Birmânia a maior parte dos muçulmanos de Rakhine descendentes de residentes chegados após 1823, imediatamente antes do início da Primeira Guerra Anglo-Birmanesa.

 

A Nobel da Paz de 1991, à frente do governo desde 2016, persiste em subestimar a gravidade da situação no estado do Noroeste, e ao recusar denunciar actos de violência patrocinados pelo estado deita a perder a justa reputação internacional que lhe granjeou a luta pela democracia e direitos humanos na Birmânia desde 1988.

 

A Senhora, conforme o tratamento respeitoso que lhe é devido na tradição birmanesa, chegou à chefia do governo depois de a Liga Nacional para a Democracia conseguir 57% dos sufrágios nas eleições de 2015, mas ficou manietada pelas imposições dos militares.

 

A presidência foi-lhe negada por ter dois filhos de nacionalidade britânica e os militares que controlaram o país desde 1962 impuseram-lhe a tutela castrense sobre os ministérios da Defesa e Interior.

 

As chefias das Forças Armadas têm, também, direito de veto em negociações de autonomia administrativa e cativam 25% dos mandatos nas duas câmaras da Assembleia da União de Myanmar de forma a obviar a revisões indesejáveis da Constituição de 2008.

 

O general Min Aung Hlaing, comandante-chefe das Forças Armadas, é, assim, soberano em questões militares e de segurança mesmo que Aung San Suu Kyi lidere o executivo e outro militante da Liga, Htin Kyaw, seja Presidente.  

 

O general Aung San, líder e mártir do movimento independentista e pai de Suu Kyi, contou com proeminentes associados muçulmanos como U Razak que também morreu no atentado contra o executivo de transição em 1947.

 

A Senhora teve igualmente a seu lado políticos muçulmanos, caso do constitucionalista Ko Ni, assassinado em Janeiro, mas, nas eleições de 2015, excluiu candidatos muçulmanos das listas da Liga.

 

Ao calar e ceder ante violências, por expediente e constrangimentos políticos, a Senhora desgraça-se e desgraça Myanmar.    

       
Jornalista

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comentários mais recentes
pertinaz 13.09.2017

POIS É... ASIÁTICOS E ÁRABES NÃO SÃO DE FIAR

ESTA SENHORA ERA UMA VÍTIMA ATÉ SE ENCONTRAR NO PODER

AGORA APROXIMA-SE DO PERFIL DE GENOCIDA...!