Adair Turner
Adair Turner 07 de Novembro de 2016 às 20:00

A desilusão com as capacidades

A maioria dos economistas está seguro que o capital humano é tão importante para o crescimento da produtividade como o capital físico. E, até certo ponto, essa é uma verdade óbvia.

Todos concordam que uma educação melhor e uma melhoria das competências, para o maior número de pessoas possível, é crucial para aumentar a produtividade e os padrões de vida e também para travar a crescente desigualdade. Mas, e se todos estiverem errados?

A maioria dos economistas está seguro que o capital humano é tão importante para o crescimento da produtividade como o capital físico. E, até certo ponto, essa é uma verdade óbvia. As economias modernas não seriam possíveis sem a difusão da literacia e da aritmética: muitas economias emergentes estão a atrasar-se dado que estas competências não são adequadas.

São necessárias poucas pessoas qualificadas para conduzir as áreas fundamentais da actividade económica e essa é uma característica marcante da economia moderna. O Facebook tem um valor de mercado de 374 mil milhões de dólares mas apenas 14.500 funcionários. A Microsoft, que tem um valor de mercado de 400 mil milhões de dólares, emprega 114 mil pessoas. A GlaxoSmithKline, que está avaliada em 100 mil milhões de dólares, tem um efectivo de apenas 96 mil pessoas.

A força de trabalho destas três empresas é apenas uma gota no oceano do mercado de trabalho mundial. E ainda assim fornecem serviços de consumo que são usufruídos por milhares de milhões de pessoas; criam software e apoiam e incentivam melhorias ao nível da produtividade da economia e desenvolvem medicamentos que podem trazer grandes benefícios para a saúde de centenas de milhões de pessoas.

Esta separação entre emprego e valor acrescentado reflecte o papel das tecnologias da informação e comunicação (TIC), que são distintas em dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, em linha com a Lei Moore, o caminho das melhorias da produtividade com hardware é muito mais rápido do que era nas fases iniciais das mudanças tecnológicas. Em segundo lugar, assim que o software é criado, pode ser copiado inúmeras vezes com um custo marginal próximo de zero. Em conjunto, estes factores permitem uma automatização de baixo custo de cada vez mais actividades económicas, conduzidas pelas elevadas competências de apenas uma pequena minoria da força de trabalho.

Apesar deste fenómeno, mais pessoas do que nunca procuram níveis educacionais mais elevados, evidentemente motivadas pelo facto de mais competências se traduzirem em salários melhores. Os empregos com salários mais altos podem desempenhar um papel na condução das melhorias da produtividade. Se houver mais advogados com competências superiores, os processos jurídicos podem ser travados de forma mais eficaz e serem mais dispendiosos para ambos os lados, mas sem que isso signifique um aumento líquido no bem-estar humano.

As consequências humanas de muitas das transacções financeiras são semelhantes a zero. Mas, ainda assim, pode haver muitas actividades dedicadas ao desenvolvimento de novas marcas ou modas e também mais competências e energia dedicada a concorrer pela atenção dos consumidores e quota de mercado, mas nada disto vai necessariamente ter como resultado um aumento do bem-estar humano.

Mais pessoas a terem um nível de escolaridade mais elevado não significa que as suas competências sejam maiores e que isso vá conduzir a um aumento da produtividade em todos os casos. Um aumento das propinas das universidades – estão a crescer a uma taxa anual de 6% em termos reais nos Estados Unidos – pode não indicar que as competências, cada vez mais elevadas, são necessárias para desempenhar trabalhos específicos. Em vez disso, os futuros candidatos a um trabalho podem simplesmente estar disponíveis para gastar muito dinheiro para sinalizar aos empregadores que têm elevadas competências.

Por outro lado, as universidades podem ficar presas numa competição para atraírem, cada vez mais, estudantes que paguem. E rapidamente a dívida estudantil sobe – de mais de 400 mil milhões de dólares para 1,3 biliões de dólares apenas nos Estados Unidos desde 2005 – e pode em parte financiar uma competição mais intensa por empregos com salários mais elevados e não num investimento em capital humano, algo que é exigido socialmente.

De igual forma, não é claro que, na parte inferior da escala de rendimentos, melhores competências se traduzam numa compensação significativa das desigualdades crescentes. Novos empregos podem sempre ser criados à medida que automatizamos muitos dos trabalhos existentes, mas novos empregos têm, muitas vezes, salários inferiores.

Estimativas do Gabinete de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos (BLS na sigla inglesa) relativas à criação de empregos nos próximos dez anos ilustram este padrão. No topo da tabela das categorias ocupacionais, que representam 29% das previsões totais de criação de empregos, apenas duas – enfermeiros e directores de operações – são melhor pagas, em média, em comparação com a média de rendimentos nos Estados Unidos. A maioria das outras oito categorias pagam bem menos.

O emprego está a crescer rapidamente no sector do atendimento pessoal como é o caso dos cuidados pessoais. Estes empregos são mais difíceis de automatizar do que a produção ou os serviços de informação; mas, de acordo com o BLS, estes serviços exigem apenas competências formais limitadas ou a formação no local de trabalho. E as categorias de empregos que exigem especialistas com competências em TIC não chegam sequer ao top dez. O BLS prevê mais 458 mil assistentes de cuidados pessoais e 348 mil assistentes de saúde ao domicílio mas apenas mais 135 mil programadores de software e de aplicações. 

Mas não deveriam melhores competências permitir rapidamente às pessoas com baixos salários terem trabalhos com salários mais elevados? Em muitos casos, a resposta pode ser não. Apesar de muitas pessoas serem capazes de programar, apenas um pequeno número vai ter trabalho devido às suas capacidades de programação. E mesmo alguém que, apesar de estar actualmente num emprego com um baixo salário, esteja preparado para desempenhar um emprego de elevadas competências, esse emprego vai continuar a ir para um empregado que ainda assim tem elevadas competências e a diferença de pagamento pode continuar a ser boa: em muitos empregos, o ranking relativo a competências pode ser mais importante do que as capacidades.

Por isso, "melhor educação e mais competências para todos" pode ser menos importante para o crescimento da produtividade e uma ferramenta menos importante para ofuscar a desigualdade do que a sabedoria convencional aponta. Mas pelo menos não prejudicaria o valor social e pessoal da educação.

Quantas mais pessoas puderem ter um nível de literacia elevado, bem como estarem conscientes e fascinadas pelas bases da ciência e entusiasmadas e capazes de compreender boa música e bom design, melhor. Afinal, num mundo onde a automatização pode libertar-nos do trabalho duro e interminável, uma boa educação vai ser o melhor para preparar-nos para vivermos vidas satisfatórias, independentemente dos aumentos individuais de salários ou medidas de prosperidade.

No que diz respeito às desigualdades, precisamos de compensá-las através de uma redistribuição, ou com os salários mínimos mais elevados ou apoiando os rendimentos sem que isso esteja relacionado com o preço estabelecido no mercado para essa profissão e através de uma provisão generosa de bens públicos de elevada qualidade. 

Num mundo onde os robôs podem cada vez mais fazer o nosso trabalho, a educação e as competências são mais importantes que nunca – não apenas porque isso pode subir o preço de todos no mercado laboral mas porque pode preparar-nos para vidas cujos empregos não dão rendimentos adequados, satisfação e estatuto.

Adair Turner foi presidente da Autoridade dos Serviços Financeiros do Reino Unido e é actualmente "chairman" do Institute for New Economic Thinking. O seu mais recente livro intitula-se "Between Debt and the Devil".

Copyright: Project Syndicate, 2016.

www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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