João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 07 de novembro de 2017 às 19:36

A desmesura de um saudita aventureiro

Mohammad bin Salman, prestes a suceder a seu pai, rompeu com todos os consensos da família real saudita e do clero wahabita para se impor como autocrata absoluto e enveredar pelo confronto com o Irão xiita.

O primogénito da terceira esposa do rei Salman crê-se fadado para o poder e o pai não hesitou em nomeá-lo ministro da Defesa com apenas 29 anos quando ascendeu ao trono em Janeiro de 2015, sucedendo ao meio-irmão Abdullah.

 

O envolvimento militar directo na guerra civil do Iémen, a favor do Presidente Hadi contra os separatistas xiitas Houthi, e o reforço do apoio a milícias sunitas rivais de Bashar al Assad, na Síria, surgiram, de imediato, como sinal de maior virulência de Riade no confronto com Teerão.   

   

Ano e meio depois, o monarca excluía o sobrinho Muhammad bin Nayef como sucessor designado e Mohammad ascendia a príncipe herdeiro, assumindo, também, o Ministério do Interior, em nome de um projecto de modernização autoritária.

 

O ultimato para a submissão do Qatar em Junho, a prisão de críticos e desalinhados   ao longo deste Verão, culminando com a imposição a Saad al Hariri do anúncio, durante visita a Riade, de demissão da chefia do governo do Líbano e a ruptura com o movimento xiita Hezbollah foram-se sucedendo.

 

A demissão do príncipe Mutaib bin Abdullah, responsável pela Guarda Nacional, e a sua detenção na purga deste fim-de-semana, deixaram, finalmente, nas mãos do príncipe herdeiro o controlo directo de todas as forças militares e de segurança.  

  

Obrigando à submissão os demais ramos da Casa de Saud, Mohammad, legitimado pela anuência do pai - 81 anos e saúde frágil -, revelou-se, até agora, um excepcional manobrador de bastidores, neutralizando focos de resistência.

 

O modo expedito como levou a cabo a detenção de relevantes figuras da alta roda política, económica e financeira indicia que o príncipe herdeiro conta com sérios apoios na hierarquia do Estado.

 

Entre o clero wahabita escassas vozes tentam fazer-se ouvir contra a autoproclamada intenção de Mohammad de retomar a tradição saudita - que, por sinal, nunca existiu - como "país de islão moderado aberto a todas as religiões e ao mundo".

 

O apoio de Donald Trump ao rei Salman e seu herdeiro tem sido uma constante pela aposta numa frente sunita anti-Irão, apesar do fracasso das iniciativas de Mohammad no Iémen e Síria, além da resistência do Qatar às intimidações de Riade, o que deixa margem para radicalizar o confronto com Teerão.  

 

A monarquia já passou por transes violentos, como a destituição, em 1964, do rei Saud pelo irmão e príncipe herdeiro Faisal que, por sua vez, acabaria assassinado por um sobrinho em 1975, ou, no final de 1979, a captura da Grande Mesquita de Meca por milenaristas islamitas e a Revolta de Qatif nas províncias xiitas do Leste, como efeito de choque da revolução de Khomeini.

 

Mohammad sela, contudo, uma ruptura fundamental ao pôr em causa a tradicional busca de consensos entre as famílias e tribos herdeiras de Ibn Saud, fundador do reino em 1932, e o omnipresente rigorismo wahabita.

 

O projecto autocrático de concentração de poderes vai a par da proclamada ambição de ultrapassar em duas décadas a dependência do petróleo (das receitas) a favor de uma economia de serviços, tecnologicamente avançada, capacitando profissionalmente uma população jovem (cerca de metade dos 33 milhões de habitantes têm menos de 25 anos), incluindo, parcialmente, mulheres.

 

Num país onde poder, rendas e oportunidades de negócio derivam da posição relativa na hierarquia de privilégio da Casa de Saud, provendo o Estado subsídios e rendimentos a 22 milhões de súbditos isentos de contribuições fiscais directas, o projecto de Mohammad obriga, contudo, a uma reformulação de obrigações e direitos incompatível com o actual regime.

 

A Visão 2030 de Mohammad, com suas tiradas demagógicas, caso do investimento de 500 mil milhões de dólares em Neom, cidade operada por robôs no golfo de Aqaba, no Mar Vermelho, pressupõe vasta captação de capital, abertura educacional e motivação laboral, que dificilmente será viável num ambiente de instabilidade política e poder discricionário.    

 

O entendimento com Moscovo para suster a queda de preço dos hidrocarbonetos é, por outro lado, pré-condição de financiamento de reformas, a par da aguardada privatização de 5% da petrolífera estatal Saudi Aramco, dada a diminuição das reservas em divisas (rondando actualmente 500 mil milhões de dólares) e o défice orçamental superior a 15% do PIB.

 

A radicalização no confronto com o Irão, as veleidades de reformas económicas e a moderação religiosa a favor de um poder pessoal, absoluto e discricionário são mostra da desmesura de Mohammad bin Salman e já muitos são os que esperam que venha a perecer pela espada.

 

Jornalista

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