Fernando  Sobral
Fernando Sobral 13 de fevereiro de 2018 às 19:00

A ditadura na internet

John Perry Barlow foi um vagabundo global. Cowboy, poeta (escreveu temas para os Grateful Dead), filósofo e profeta da revolução digital, desapareceu há poucos dias.

Mas a sua influência na forma como olhamos para a internet (algo que fui lendo desde o início da voz ideológica deste novo mundo, a Wired, onde Barlow colaborou muito no início) era como um farol no meio das trevas. Foi ele que em 1996 escreveu a Declaração de Independência do Ciberespaço, em que se pedia que os governos se abstivessem de interferir na internet. Esta deveria ser um espaço de liberdade, uma nova última fronteira, sem tutores ou xerifes. Era talvez um desejo inocente, como se tem vindo a descobrir. A morte deste visionário surge num momento em que a internet libertária que visionou (uma comunidade de indivíduos que buscam ali um território para se associar e criar) está sob ameaça. Não só de regimes políticos musculados, mas também de novas leis mais restritivas. E, claro, cada vez mais na mão de empresas hegemónicas como a Google, o Facebook ou a Amazon.

 

Este é o ponto de partida de um livro de Yuval Noah Harari, "Sapiens and Homo Deus", no qual se avança com a ideia de que o aparecimento de rastreadores médicos é o primeiro sinal da revolução cibernética que vai transformar os nossos conceitos sobre a liberdade e a democracia. Algo que deveria começar a preocupar os nossos partidos e o Estado. A questão é central: quem vai controlar os dados disponíveis? O que acontecerá quando os computadores começarem a controlar não apenas os nossos mails, mensagens e dinheiro (a digitalização dos meios de pagamento vai ser uma questão em termos de liberdade individual), mas os nossos corpos. Ou seja, quando se juntar a revolução tecnológica com a da biotecnologia, haverá a possibilidade de rastrear os sentimentos, as decisões e as opiniões de cada ser humano. Não haverá segredos para as empresas que sucederão ao Facebook ou à Google. Ou a estas. Nem para as polícias. Que será então da democracia?

 

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