Miguel Luzárraga
Miguel Luzárraga 30 de janeiro de 2017 às 10:20

A dívida dos mercados emergentes e nova era de reflação

O aumento do protecionismo poderá prejudicar as economias de mercados emergentes mais abertas, como o México ou o Chile.
A surpreendente vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas de Novembro deixa antever uma certa mudança de paradigma no que diz respeito ao investimento global em obrigações. O discurso deixou de ser "baixar cada vez mais" e "ir em busca de rentabilidade" e passou a assentar em expetativas de maiores níveis de crescimento, inflação e taxas de juro nos EUA.

Estamos em crer que esta mudança de paradigma pós-eleitoral significa apenas uma pausa na dinâmica da dívida dos mercados emergentes, e que uma perspetiva de maior crescimento dos EUA é um bom prenúncio para os mercados emergentes. O próximo trimestre poderá ser marcado por maior volatilidade, devido ao impacto inicial da subida das taxas de juro dos EUA e à persistente incerteza das políticas, o que exige uma abordagem mais oportunista no que toca investimento. Posteriormente, os benefícios das políticas reflacionárias de Trump começarão a fazer-se sentir nos mercados emergentes, caso não sejam cometidos erros de governação graves.

A reflação dos EUA poderá ser benéfica para os mercados emergentes

Numa altura em que grande parte dos mercados emergentes se encontra numa melhor posição fundamental em comparação com 2013, uma verdadeira mudança da política reflacionária dos EUA poderá mostrar-se positiva para os mercados emergentes no seu todo. Embora o agravamento das condições financeiras possa vir a fazer-se sentir a curto prazo nestes mercados, uma retoma significativa na atividade económica dos EUA poderá mostrar-se favorável devido ao aumento da procura de produtos exportados pelos mercados emergentes e ao aumento dos preços das "commodities". Em relação a 2017, prevemos que o crescimento do PIB real destes mercados chegue a 4,0% durante o ano, comparativamente a 3,8% em 2016, no seu todo. O aumento da incerteza e o agravamento das condições financeiras implicarão uma mera pausa no processo de recuperação em curso nos mercados emergentes, nomeadamente no início do ano, mas não o impedirão.

Permanece a incerteza relativa ao comércio e à política externa

O protecionismo é uma preocupação real, mas persiste um significativo grau de incerteza sobre a direção da política comercial de Trump. A sua retórica durante campanha levantou algumas preocupações, nomeadamente as promessas sobre a renegociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte, a saída da Parceria Transpacífico e a imposição de tarifas comerciais.

Uma postura agressiva e protecionista da administração Trump poderá afetar negativamente o crescimento global, com um impacto desproporcional nas economias emergentes de mercados emergentes mais expostas aos EUA. Enquanto isso, a confiança das empresas e dos consumidores nessas economias poderá ficar sob pressão enquanto não for conhecido o verdadeiro alcance das políticas comerciais de Trump.

Os riscos geopolíticos são igualmente elevados. A doutrina da política externa de Trump parece favorecer a desintervenção dos EUA e um crescente isolacionismo. Trump parece determinado a reajustar as tensas relações com a Rússia, o que poderá ser positivo para a Rússia em geral, mas não o será tanto para países como a Ucrânia e os estados bálticos, que estão na sua órbita imediata.

A diferenciação por países é mais importante do que nunca

Estamos a meio de uma mudança de paradigma, e há uma série de incertezas no que diz respeito ao investimento em 2017. Neste tipo de conjuntura, a diferenciação por países e uma abordagem ágil e ativa para investir torna-se mais importante do que nunca. Embora seja necessária maior clareza política, sobretudo no que diz respeito ao comércio, haverá inevitavelmente, durante a presidência de Trump, claros vencedores e vencidos no conjunto de mercados emergentes. O aumento do protecionismo poderá prejudicar as economias de mercados emergentes mais abertas, com fortes vínculos comerciais com os EUA, nomeadamente o México, o Chile e algumas economias asiáticas abertas.

Por outro lado, os mercados emergentes relativamente fechados ou menos expostos ao potencial protecionismo dos EUA, como a Índia, a Rússia e grande parte da Europa Central e Oriental, poderão apresentar um desempenho superior. No entanto, importa contrabalançar as eventuais repercussões negativas do protecionismo com a possibilidade de as políticas reflacionárias de Trump poderem propiciar um impulso de crescimento positivo que venha a beneficiar os mercados emergentes com um elevado beta em relação ao crescimento dos EUA, bem como os produtores de "commodities". Com este cenário favorável, muitos países da América Latina poderão realmente tirar partido. Por último, as economias mais dependentes de financiamento externo, entre as quais a Argentina e a Turquia, poderão debater-se com dificuldades devido à valorização do dólar.


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.



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