Kaushik Basu
Kaushik Basu 29 de agosto de 2017 às 14:00

A economia global em 2067

A turbulência actual deve motivar os líderes mundiais e trabalharem no desenvolvimento e na implementação das políticas de que precisamos para criar um futuro mais próspero, equitativo e estável.

O mundo está a passar por uma crise económica em câmara lenta; uma crise que, segundo a maioria dos especialistas, deverá prolongar-se no futuro previsível. A economia global tem crescido de forma intermitente desde a crise económica de 2008 - uma das estagnações mais longas de que há registo na era moderna. Em praticamente todos os países de rendimento médio e alto, os salários (em percentagem do PIB) têm estado numa trajectória descendente há quase 40 anos. Mas o que acontecerá nos próximos 50?

 

Hoje, a situação parece sombria. A estagnação económica e a crescente desigualdade contribuíram para um aumento da xenofobia e do nacionalismo nos países avançados, exemplificado pela decisão do Reino Unido de sair da União Europeia e pela eleição do presidente dos EUA, Donald Trump - e agora pela sua decisão de abandonar o acordo de Paris sobre o clima. Ao mesmo tempo, grandes áreas do mundo em desenvolvimento - particularmente, o Médio Oriente e o norte de África - têm estado envolvidas em conflitos, e algumas aproximam-se da falência do Estado.

 

Embora seja provável que esta turbulência continue durante o futuro próximo, não existe consenso sobre o que acontecerá depois. Na verdade, as previsões de longo prazo são normalmente um exercício enganoso. Em 1930, num período igualmente conturbado, foi o próprio John Maynard Keynes que tentou a sua sorte, com o famoso ensaio "Possibilidades económicas para os nossos netos." As suas previsões falharam.

 

No entanto, a tentativa de Keynes representa seguramente um precedente respeitável para as previsões económicas. Por isso, aqui vai: daqui a 50 anos, prevejo que a economia estará provavelmente (mas sem certeza absoluta) a prosperar, com o PIB global a crescer 20% ao ano, e com o rendimento e o consumo a duplicarem a cada quatro anos.

 

À primeira vista, este cenário poderá parecer fantasioso. Afinal, a economia global só cresce actualmente a uma taxa anual próxima dos 3% (ou um pouco menos, nos últimos anos). Mas não seria a primeira vez que o crescimento económico global aceleraria para níveis anteriormente inimagináveis.

 

Entre 1500 e 1820, de acordo com dados recolhidos pelo falecido Angus Maddison, a taxa de crescimento global foi de apenas 0,32%, sendo que grandes partes do mundo não registaram qualquer crescimento. Na China, o rendimento anual per capita permaneceu nos 600 dólares durante esse período. Para alguém que vivesse nessa época, a actualmente decepcionante taxa de crescimento de 3% teria sido inconcebível. Como poderiam prever a Revolução Industrial, que elevou o crescimento anual médio global para 2,25% entre 1820 e 2003?

 

Hoje, é a Revolução Digital que promete elevar o crescimento para novos máximos. Na verdade, encontramo-nos no meio de inovações tecnológicas impressionantes, com avanços na tecnologia digital a ligar todos os cantos do mundo. Como resultado, os trabalhadores não se estão a tornar apenas mais produtivos; estão também a conquistar maior acesso ao emprego. As pessoas nos países em desenvolvimento, por exemplo, conseguem hoje trabalhar para empresas multinacionais. O resultado final é que há mais trabalhadores a participar no mercado de trabalho.

 

Os efeitos económicos desta tendência não foram todos positivos. Nos Estados Unidos, por exemplo, o salário médio real (ajustado pela inflação) quase não subiu, mesmo com o desemprego a descer para 4,3%. Ao permitir a distribuição de mais empregos por trabalhadores estrangeiros com salários mais baixos – e por cada vez mais máquinas - a tecnologia reforçou este "tecto salarial máximo".

 

A chave para quebrar este tecto consiste em alterar os tipos de trabalho a que as pessoas se dedicam. Através do ensino e da formação melhorados, bem como de uma redistribuição mais eficaz, podemos viabilizar mais trabalho criativo- da arte à investigação científica - que as máquinas não serão capazes de desempenhar no futuro previsível.

 

Embora esse tipo de trabalho possa parecer um desperdício, dado o número de pessoas e a quantidade de tempo necessários para garantir uma conquista ou inovação importante, tal conquista ou inovação é tudo aquilo que é necessário para criar valor suficiente e melhorar as condições de vida de toda a gente. E, na verdade, à medida que o sector criativo crescer, o crescimento também aumentará significativamente.

 

Este resultado é provável, mas não é certo. Garanti-lo exigirá alterações fundamentais nas nossas economias e sociedades.

 

Por um lado, devemos trabalhar para suavizar a transição dos trabalhadores para empreendimentos mais criativos. Isto exigirá alterações fundamentais nos sistemas educativos, nomeadamente na formação para adultos. Também exigirá políticas e programas que proporcionem alguma margem financeira aos trabalhadores deslocados; de outra forma, os proprietários das máquinas e do capital aproveitarão as rupturas tecnológicas para se apropriarem de uma fatia ainda maior do bolo económico. A nível nacional, isto pode ser alcançado através de uma qualquer forma de partilha de lucros, mantendo por exemplo 15 a 20% dos lucros totais de um país na "posse" das classes trabalhadoras.

 

Os padrões de consumo também terão de mudar. Se, com o consumo global a duplicar a cada quatro anos, também duplicarmos o número de automóveis nas estradas ou de milhas percorridas pelos aviões, rapidamente ultrapassaremos os limites do planeta. Isto será tanto mais válido se considerarmos que o aumento da esperança de vida não só aumentará o crescimento populacional, como também a proporção de idosos. Serão necessários os incentivos certos para garantir que uma grande parte da nossa riqueza seja direccionada para a melhoria da saúde e para alcançarmos a sustentabilidade ambiental.

 

Se não conseguirmos alcançar estas mudanças nos próximos anos, a economia mundial dirigir-se-á para o outro extremo durante os próximos 50 anos. Nesse cenário, 2067 seria marcado por ainda maiores desigualdades, por conflitos, e pelo caos, com os eleitores a escolherem líderes que se aproveitam dos seus medos e reivindicações. O que acredito que podemos excluir é o meio-termo, com o mundo a parecer-se com aquilo que têm sido os últimos 30-40 anos.

Em 1967, o mundo assistiu a grandes inovações na economia (o primeiro ATM do mundo foi instalado próximo de Londres em Junho desse ano) e na saúde (o primeiro transplante de coração bem sucedido foi realizado na África do Sul em Dezembro). Para que 2067 marque um centenário digno destas inovações, a turbulência actual deve motivar os líderes mundiais e trabalharem no desenvolvimento e na implementação das políticas de que precisamos para criar um futuro mais próspero, equitativo e estável.

 

Kaushik Basu, antigo economista-chefe do Banco Mundial, é professor de Economia na Cornell University.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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