Stephen  Roach
Stephen Roach 09 de Novembro de 2016 às 20:00

A economia mundial sem a China

Sou o primeiro a admitir que a economia mundial pós-crise estaria em graves dificuldades sem o crescimento chinês. Os que apostam na queda da China têm de ter cuidado com o que desejam.
Estará a economia chinesa prestes a implodir? Com a sua elevada dívida e bolhas imobiliárias, as suas empresas públicas "zombie" e os seus bancos em dificuldades, a China é cada vez mais retratada como o próximo desastre num mundo propenso a crises.
 
Continuo convencido de que tais temores são exagerados, e que a China tem a estratégia e recursos necessários para alcançar uma transformação estrutural dramática em direcção a uma sociedade de consumo baseada nos serviços, driblando com sucesso os desafios cíclicos. Mas reconheço que, agora, esta é uma opinião minoritária.
 
Por exemplo, o secretário do Tesouro norte-americano, Jacob J. Lew, continua a expressar a visão surpreendente de que os Estados Unidos "não podem ser o único motor da economia mundial". Na verdade não são: a economia chinesa deverá contribuir quatro vezes mais do que os Estados Unidos para o crescimento global, este ano. Talvez Lew já esteja a assumir o pior cenário para a China na sua avaliação da economia mundial.
 
Mas, e se os cépticos estiverem certos? E se a economia da China estiver, de facto, a desabar, com a sua taxa de crescimento a afundar para um dígito, ou mesmo para território negativo, como é o caso da maioria das economias em crise? A China iria sofrer, é claro, assim como a economia global, que já é instável. Com tudo o que se diz sobre a economia chinesa, vale a pena considerar este exercício mental em detalhe.
 
Para começar, sem a China, a economia mundial já estaria em recessão. Este ano, a taxa de crescimento da China deverá ficar nos 6,7% - consideravelmente maior do que esperava a maioria dos analistas. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) - o árbitro oficial das métricas económicas globais – a economia chinesa representa 17,3% do PIB mundial (medido numa base de paridade do poder de compra). Assim, um aumento de 6,7% no PIB real chinês traduz-se em cerca de 1,2 pontos percentuais do crescimento mundial. Sem a China, essa contribuição teria de ser subtraída da estimativa de 3,1% do FMI para o crescimento do PIB mundial em 2016, arrastando-o para 1,9% - bem abaixo do limite de 2,5% normalmente associado a recessões globais.
 
Naturalmente, este é apenas o efeito directo de um mundo sem a China. Depois, há as ligações transfronteiriças com outras grandes economias.
 
As chamadas economias de recursos – nomeadamente a Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Rússia e Brasil - seriam especialmente atingidas. Como consumidora massiva de recursos, a China transformou essas economias, que representam, em conjunto, quase 9% do PIB mundial. Ainda que todas elas argumentem que têm estruturas económicas diversificadas que não são excessivamente dependentes da procura chinesa, os mercados de divisas dizem o contrário: sempre que as expectativas de crescimento da China são revistas - para cima ou para baixo – as suas taxas de câmbio movem-se em paralelo. O FMI acredita que estas cinco economias vão contrair 0,7% em 2016, reflectindo as recessões na Rússia e Brasil e um crescimento modesto nas outras três. Escusado será dizer que, num cenário de implosão da China, esta estimativa seria revista em baixa de forma significativa.

O mesmo aconteceria com os parceiros comerciais asiáticos da China - a maioria dos quais economias dependentes das exportações que têm no mercado chinês a sua maior fonte de procura externa. Isso é verdade não só para as economias em desenvolvimento mais pequenas, como a Indonésia, Filipinas e Tailândia, mas também para as economias maiores e mais desenvolvidas da região, como o Japão, Coreia e Taiwan. Colectivamente, essas seis economias asiáticas dependentes da China representam mais de 11% do PIB mundial. A implosão da China poderia retirar facilmente pelo menos um ponto percentual da sua taxa de crescimento conjunta.
 
Os Estados Unidos são outro exemplo. A China é o terceiro maior mercado de exportação da América. Num cenário de implosão da China, essa procura desapareceria - retirando cerca de 0,2 a 0,3 pontos percentuais ao crescimento económico dos EUA, que será de cerca de 1,6% em 2016.
 
Por fim, há que considerar a Europa. O crescimento na Alemanha – há muito o motor da economia da região que, de outra forma, seria esclerótica – continua fortemente dependente das exportações. Isso deve-se cada vez mais à importância da China - agora o terceiro maior mercado de exportação da Alemanha, depois da União Europeia e dos Estados Unidos. Num cenário de implosão da China, o crescimento económico alemão também poderia ser significativamente inferior, arrastando o resto da Europa.
 
Curiosamente, na sua actualização do World Economic Outlook, lançada em Outubro, o FMI dedica um capítulo inteiro ao que chama de uma análise das repercussões da China - uma avaliação dos impactos globais de uma desaceleração da China. Consistente com os argumentos acima, o FMI centra-se em ligações com exportadores de matérias-primas, exportadores asiáticos, e o que chamam de "economias avançadas sistémicas" (Alemanha, Japão e EUA) que estariam mais expostas a uma desaceleração chinesa. Pelos seus cálculos, o impacto sobre a Ásia seria o maior, seguido de perto pelas economias de recursos; a sensibilidade das três economias desenvolvidas é cerca de metade da dos parceiros comerciais asiáticos, excluindo o Japão.
 
A pesquisa do FMI sugere que as repercussões globais da China acrescentariam mais 25% aos efeitos directos do défice de crescimento chinês. Isso significa que, se o crescimento económico chinês se esfumasse, de acordo com o nosso exercício mental, a soma dos efeitos directos (1,2 pontos percentuais do crescimento global) e repercussões indirectas (cerca de mais 0,3 pontos percentuais), reduziria para metade a estimativa de crescimento global para 2016, de 3,1% para 1,6%. Ainda que ficasse longe da contracção global recorde de 0,1% em 2009, não seria muito diferente das duas recessões mundiais profundas, em 1975 (crescimento de 1%) e 1982 (0,7%).
 
Posso ser um dos poucos optimistas que restam no que diz respeito à China. Ainda que esteja pouco optimista em relação às perspectivas para a economia global, penso que o mundo enfrenta problemas muito maiores do que um grande colapso na China. No entanto, sou o primeiro a admitir que a economia mundial pós-crise estaria em graves dificuldades sem o crescimento chinês. Os que apostam na queda da China têm de ter cuidado com o que desejam.
 
Stephen S. Roach, membro da Universidade de Yale e antigo chairman do Morgan Stanley Ásia, é autor de Unbalanced: The Codependency of America and China.

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria
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comentários mais recentes
Rafael Domingos de Oliveira Há 3 semanas

Neste rol de previsões feitas pelo professor Stephen S. Roach, questiono-me sobre as reais consequenciais que terão as economias africanas e como podem elas evitar prováveis choques derivados de uma possível queda do produto chinês?

nunes Há 4 semanas

a china é excendentària com quaze todos os paises do mundo com Portugal é 50% com a UE o excedente ultrapassa os 180 mil milhoes de euros dentro de alguns anos sera propriatària do continente europeu visto as compras que anda a fazer... em resumo foi um grande erro a entrada da china na OMC...

Ciifrão Há 14 minutos

Óbvio que qualquer tempestade na economia da China influencia resto do mundo, provavelmente até os Índios da Amazónia iriam sentir os efeitos.