Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 02 de junho de 2017 às 12:20

A era do nós contra eles

As mudanças globais, como as que estamos a viver, questionam identidades e forçam a mudança, gerando ansiedade e conflitos que por todo o mundo estão a alimentar os nacionalismos, os extremismos e o terrorismo.

O "América primeiro" de Donald Trump assenta no mesmo tipo de ansiedade que por todo o mundo alimenta nacionalismos, extremismos e o terrorismo. Trata-se, em termos fundamentais, de uma luta por se saber quem se é, quando tudo está a mudar. Ao contrário do que possa parecer, os fundamentalistas não são quem têm mais certezas; são quem têm mais dúvidas. Por isso reagem de forma extremada, tentando sobretudo convencerem-se a si mesmos da sua posição.

 

O impacto informacional e comunicacional da Internet e dos telemóveis, com a globalização como uma das suas consequências mais visíveis, é uma das mudanças mais importantes de sempre. Só comparável à invenção do alfabeto fonético. No futuro, quando se estudar a nossa era, o século XX, o Renascimento e a Idade Média, o Império Romano e a Grécia antiga, a invenção da escrita, pode bem ser que a grande divisão seja feita entre os tempos 'antes da internet' e 'depois da internet'. E é nesta era, depois da Internet, que por todo o mundo as pessoas, grupos e países inteiros se questionam: quem somos nós?

 

Quando as coisas mudam, o que atormenta as pessoas é quem sou eu? Qual o meu papel, o meu espaço, as minhas possibilidades, a minha identidade? A história ensina-se que se trata de questões fundas, que podem originar conflitos. O que nos é familiar, aquilo a que estamos habituados dá-nos uma identidade. Mas as revoluções, as alterações de fundo como as que estamos a viver mudam as identidades. Não é apenas o mundo que muda, mas nós próprios, cada um de nós e as comunidades que necessitam de novo de encontrar o seu lugar no mundo. As novas tecnologias introduzem novas escalas na acção humana no espaço e no tempo, como hoje o está a fazer a Internet e os telemóveis e antes o fizeram a máquina a vapor ou o domínio do ferro. Ao impor-se em sociedades habituadas a outros modos de relacionamento, essas novas tecnologias geram vagas de ansiedade e inquietação. Na fronteira entre o que passou e o que está a chegar, que corre funda pelo Médio Oriente, pela Ásia e também pela Europa e Estados Unidos, para referir apenas alguns dos locais onde a agitação social, política e militar é mais patente, as pessoas lutam pela identidade, optando por vezes por caminhos mais radicais.

 

O ambiente informacional e emocional da Internet, as vagas constantes de informação, a realidade que se constrói nos ecrãs facilita o sentimento de insegurança, de caos e de falta de controlo sobre o futuro. É um quadro complexo, mas fácil para a emergência de discursos simplistas, do tipo nós contra eles.

 

Trata-se no entanto de uma realidade que em termos relativos toca menos os portugueses do que muitos outros povos. O país tem uma identidade histórica de mais de oitocentos anos, fronteiras estáveis e os traços da globalização são por vezes semelhantes aos de um mundo em que há muito vivemos. Por outro lado, a Europa, a sua história, riqueza, conhecimento e modo de vida continua a ser um dos polos de maior atracção e poder simbólico mundial. Mas não é assim em muitos locais, onde dizer algo radical sobre quem tu és, sobre a tua superioridade, seduz muita gente e é um caminho para o poder.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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Anónimo Há 3 semanas

Eu ganho tanto mais quanto mais modernas, prósperas, justas e sustentáveis forem a economia mundial e a economia da jurisdição onde resido e pago as minhas contribuições e impostos. Se todos pensarem assim, muito sindicato, muito partido, muito posto de trabalho e muita organização, acaba. Mas o mundo será muito melhor.