André Macedo
André Macedo 24 de setembro de 2017 às 20:10

A Espanha é una e indivisível

O humorista e também fraco ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, o exótico Boris Johnson, voltou a dizer esta semana que o Brexit valeria 350 milhões de libras por semana ao Reino Unido, insistindo numa mentira tantas vezes já desmentida que parece impossível haver ainda alguém capaz de a repetir.

O "Financial Times" chamou-lhe a estratégia do gato morto. Quando alguém está a perder uma discussão qualquer atira um disparate para o centro do debate e com isso mata o assunto anterior e toda a gente se concentra a partir daí em dissecar o corpo malcheiroso do pseudo facto moribundo. 


A querela que se impõe a seguir ganha tal preponderância que a certa altura o simples ato de contrariar a mentira flagrante acaba por funcionar ao contrário, perpetuando-a e reforçando-a na memória coletiva. É uma coisa completamente contra-intuitiva. Quanto pior, melhor: mais insidioso. Contrariar a mentira acaba por fortalecer a mentira. Até os que sabem estar perante uma grosseira manipulação da realidade têm, meses ou anos depois, mais facilidade em lembrar-se da aldrabice do que da verdade. Por exemplo, até eu, português de Lisboa, fixei a tal poupança de 350 milhões de libras semanais que o Brexit traria ao Reino Unido e não me recordo de nenhum outro argumento trocado durante a campanha que antecedeu o referendo. Trezentos e cinquenta milhões é muito dinheiro, é um foco de luz que encandeia.

O economista e jornalista Tim Hartford recorda o exemplo das vacinas infantis para mostrar como o nosso cérebro pode ser muito estúpido. Deixa-se enganar-se como faca quente na manteiga. A discussão sobre os riscos que as vacinas comportam é tão antiga e já foi tantas vezes contrariada com dados científicos que o natural seria o assunto ter sido arrumado de vez. E no entanto acontece o contrário: ainda hoje há pais -- pais informados -- que não vacinam os filhos contra a meningite C, sarampo ou a tosse convulsa, todas elas parte do plano nacional de vacinação, porque acreditam na tese estrambólica e medieval que os químicos são todos maus e não permitem fortalecer o sistema imunitário das crianças. Boris Johnson e Donald Trump, Nigel Farage e Marine Le Pen são exemplos de grandes especialistas modernos nesta táctica do gato morto para cima da mesa.

Outro assunto recente neste jogo de ilusões políticas é o debate sobre a independência - eu chamo-lhe, sem ambiguidade, secessão - da Catalunha. Depois do fracasso que está a ser o Brexit, um embaraço pueril e trágico para o Reino Unido, alguém acha normal haver ainda alguém com vontade de percorrer caminho de certa forma idêntico. Primeiro deixar Espanha e, por causa disso, inevitavelmente a União Europeia? Alguém acredita que a Catalunha independente será mais próspera do que é hoje, com mais oportunidades, mais segurança, melhor educação ou saúde pública? Alguém acredita que a UE aceitaria esta ruptura constitucional, permitindo o deslaçar do continente em várias aldeias e províncias independentes, polvilhadas de ressentimento e micro nacionalismos? Orgulhosamente sós?

O mais extraordinário deste processo de auto-destruição em curso é a constatação absurda de que entre os catalães mais duramente a favor da secessão encontram-se vários empresários e académicos de calibre. Gente habituada a ganhar dinheiro e que sabe como é muito mais difícil negociar sem escala - perguntem-nos que nós, os portugueses, podemos explicar. Pessoas que fazem da reflexão profissão e que incrivelmente não conseguem vislumbrar o evidente, nem sequer olhar para o exemplo trágico-cómico do Brexit: investimentos em fuga, deslocalização de empresas, a terrível incerteza jurídica, as interrogações sobre o futuro da moeda, a confusão e a desilusão que fatalmente iria seguir-se, a perda do estupendo mercado da língua castelhana, a incapacidade para reorganizar todas as funções que hoje são desempenhadas pelo Estado central. Como é bom Portugal ser uno e indivisível. Eu não desejo menos aos meus amigos espanhóis, de Barcelona a Vigo, de Madrid a Sevilha, todos eles orgulhosos da sua diversidade... comum.

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comentários mais recentes
joao 25.09.2017

uma independencia nao se ganha a votar , ganha se a morrer pela causa e os catalaes sao cobardes por natureza. SE A COREIA DO NORTE E INDEPENDENTE PORQUE RAZAO A VALONIA NAO PODE SER? OU SE O LUXEMBURGO E INDEPENDENTE PORQUE RAZAO O ALGARVE NAO O PODE SER??

joao 25.09.2017

em relaçao a catalunha o melhor e os aristas tugas se manterem longe porque pode sobrar para estes lados. Quem conhece os castelhanos sabe do que sao capazes, uma eventual independencia da catalunha implodia a +peninsula iberica que se podera tornar numa especie de balcas com guerras periodicas.

5640533 25.09.2017

Os países pequenos hoje em dia são inviáveis.

Araújo 25.09.2017

Como escreveu Camões : " todo o mundo é composto de mudança", independentemente de se a achamos boa ou má. Se não o fosse ainda hoje viveríamos no Imperio Romano.

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