André Macedo
André Macedo 27 de agosto de 2017 às 22:15

A especulação da baunilha

Não por acaso a volatilidade em 2017 está ao nível da registada em 2013, um ano medíocre, sendo a volatilidade um dos suaves e doces caminhos para a mais-valia dos investidores (predadores) de curto prazo.

A sopa de letras, os acrónimos, as siglas que nem sequer quem as criou as compreende em toda a extensão. MBS, CDO, CDS, CDS ao quadrado, mezanines incluídas, não o resultado do que imaginou um arquitecto inspirado para resolver um problema de espaço, mas sim andares e prateleiras estrambólicas de produtos financeiros que se misturam e baralham, bebendo em activos de calibres muito diferentes, uns bons, outros maus, muitos péssimos, talvez até horríveis - embora tudo disfarçado no meio de um perfumado bouquet financeiro -, multiplicando assim as hipóteses de venda que prometem rendibilidades maravilhosas numa época estranha em que extrair dinheiro do dinheiro passou a necessitar de adubo especial.

 

Não por acaso a volatilidade em 2017 está ao nível da registada em 2013, um ano medíocre, sendo a volatilidade um dos suaves e doces caminhos para a mais-valia dos investidores (predadores) de curto prazo. Apenas um fator tem ajudado a animar a modorra atual e não é brincadeira: as ameaças nucleares de Trump. O VIX, o indicador que avalia o fator medo nos mercados, apenas mexeu e mexeu para cima com súbito vigor depois das ameaças do Donald à Coreia do Norte, mas depois voltou ao anterior mar azeite, também conhecido como mar chão, ideal para velejar, se houvesse algum vento a soprar nas velas, mas não para multiplicar riqueza.

 

Juros ultra baixos, dinheiro quase de borla, cortesia inevitável dos bancos centrais em tempos pós-Grande Recessão, tem esta consequência colateral. Nos mercados internacionais, as ações estão caras. Quem as comprou em baixa, há um par de anos, está sentado lá em cima a observar o que acontece, vendo não vendo?, e entretanto o valor da carteira continua a inchar. É ver os resultados do fundo soberano da Noruega, o maior do mundo, que até em Portugal conseguiu espremer os limões velhos de uma praça moribunda.

 

Pelo contrário, quem gostaria de investir agora em ações ou obrigações -- ou em fundos compostos por ambas --, vai pagar caro, caríssimo, como se fosse a última moda acabada de sair das passarelas de Paris ou de Nova Iorque made by Prada ou made by Gucci. A conclusão lógica deste momento em que os depósitos a prazo também não remuneram quem lá mete as poupanças é o convite para aplicar o dinheiro em imobiliário, em tijolos e cimento, talvez para alugar, talvez para morar.

 

Lisboa, depois de anos na segunda divisão distrital deste negócio, está agora no topo da tabela, com os fundos e os "family offices" - os escritórios familiares que gerem o dinheiro de gente abastada - atentos às oportunidades que Lisboa oferece. A capital portuguesa foi, no primeiro trimestre, a que registou um maior aumento do metro quadrado entre países da Zona Euro (7,9%), ultrapassado pela Lituânia (10,2%), Letónia (10,1%) e o indomável tigre irlandês (8,9%).

E é então que, dez anos depois do início da Grande Recessão, chegamos de novo aos estupendos produtos financeiros sintéticos. MBS, CDO, CDS, CDS ao quadrado, mezanines, prateleiras e etc. Desta vez, as agências de rating não estão a molhar o bico. Não as avaliam, não lhes dão nota AAA, já não se podem queimar; mas o mercado está outra vez a entrar em transe, fazendo de conta que as siglas diferentes não significam porcarias iguais. Santa ingenuidade. Sim, sim, esta vez vai ser diferente. As transações duplicaram do ano passado para este e até há fundos de pensões (americanos e canadianos), que deveriam ser intrinsecamente prudentes, a jogar de novo nesta roleta viciada.

 

Eu não sei, mas parece que estão a ser lançadas outra vez as sementes para um novo estouro global. Pode demorar o que demorar, dois anos, cinco anos... mas entre a bolha imobiliária, a exuberância irracional no mercado de capitais (a determinação da Altice comprar uma empresa nos EUA avaliada em mais de 90% do PIB português é apenas outro sinal) e o renascer tóxico dos produtos financeiros sintéticos, a que se junta - e isto, sim, é novo - um alucinado na Casa Branca, digamos que é uma mistura perigosa. Talvez o melhor seja investir em baunilha. O quilo bateu nos 600 euros, uma loucura, há geladarias em Londres que já não servem a delícia; mas neste episódio há uma explicação natural: o mau tempo estragou as colheitas em Madagáscar, de longe o maior produtor mundial. Fosse a economia tão previsível, saberíamos antecipar os terramotos financeiros com mortal sabor a fel.

 

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