Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 25 de maio de 2017 às 20:34

A esquerda dura perde na entronização de Centeno

Ao contrário do que BE e PCP poderiam esperar num ambiente de maior desafogo orçamental, o seu poder de negociação nesta frente está a diminuir.

Foi há pouco mais de três meses que o Presidente da República segurou o ministro das Finanças com aquele comunicado venenoso em que dizia atender "ao estrito interesse nacional". Já ninguém se lembra - nem o próprio Marcelo, que ontem não resistiu a comentar o rumor de que Schäuble teria comparado Mário Centeno a Cristiano Ronaldo. O Presidente foi no rebanho provinciano que comprou o rumor pelo seu valor facial, sem procurar confirmação ou contexto, sem entreter a possibilidade de que o crítico Schäuble estivesse, apenas, a exercitar o típico humor escarninho germânico.

 

O rigor pouco interessa para quem faz a onda - e a alegada comparação a Ronaldo encaixa que nem uma luva na narrativa criada para Mário Centeno. Um dia "terá sido comparado" a Ronaldo, no outro deixa "uma porta aberta à presidência do Eurogrupo", a seguir "prevê um crescimento superior a 3% no segundo trimestre" e, 24 horas depois, "fixa uma agenda para a Zona Euro" (!) nas páginas de um diário português. Depois da surpresa no défice orçamental, da saída do Procedimento por Défices Excessivos e no meio de uma recuperação económica que ganha gás, Mário Centeno está em pleno processo de entronização mediática. 

 

No meio de tal encantamento têm passado quase despercebidas algumas afirmações importantes do ministro - importantes porque reveladoras do novo à-vontade com que o Governo encara a relação com os seus parceiros à esquerda. Esta semana foram pelo menos duas, em entrevistas a media estrangeiros: primeiro, a dispensa categórica de condições ainda mais favoráveis para o pagamento da parte europeia do empréstimo da troika, descolando de qualquer associação à Grécia; segundo, a vontade de destinar qualquer eventual folga orçamental em 2017 para abater à dívida pública.

 

Isto é mais do que mera retórica para consumo externo - afinal, o défice de 2016 foi "além de Bruxelas" e, já esta semana, o Governo comunicou o pagamento antecipado de 10 mil milhões de euros ao FMI. Centeno tem como prioridade, e bem, a recuperação do "rating" da República, o que significa pôr na gaveta a agenda da esquerda para a dívida, uma das suas principais bandeiras (incluindo da esquerda do PS). A novidade não está propriamente aí - já sabíamos essa agenda é irrealizável -, mas na forma como o ministro assume agora prioridades na gestão orçamental e uma retórica sobre a dívida que pouco ou nada ficam a dever à do ex-ministro Vítor Gaspar. 

 

Claro que a conjuntura não é a de Gaspar. A conjuntura na era Centeno, ponto crucial para entender o seu sucesso imediato de qualquer ministro das Finanças, dá margem orçamental para "repor rendimentos" e acomodar algumas reivindicações do PCP e do Bloco (há ainda terreno negocial além das finanças públicas). Mas percebe-se que, ao contrário do que estes partidos poderiam esperar num ambiente de maior desafogo orçamental, o seu poder de negociação nesta frente está a diminuir. Formalmente podem sempre chumbar o Orçamento, apear o Governo. Mas quem quer correr esse risco nas urnas (maior para o Bloco do que para o PCP) quando as coisas estão a melhorar na economia e quando uma figura como o ministro das Finanças, tipicamente impopular, está em alta?

 

P.S.: Isto, claro, também muda o jogo para a direita, presa aos tempos da emergência passada. O desafio é assumir um programa alternativo ao do PS moderado que hoje governa num quadro de nova normalidade. É aí que está o presente e pelo menos o futuro próximo. Resta saber se os líderes actuais conseguem definir essa agenda - e vendê-la aos portugueses.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
GabrielOrfaoGoncalves Há 23 horas

Contas elementares para o "Ronaldo das Finanças":

Se o PIB crescer 2,8% este ano, a dívida pública, para diminuir em relação ao PIB, tem de registar um crescimento abaixo desses 2,8%. Centeno está em condições de garantir isto?

É já certo que a dívida, em termos absolutos, vai crescer. Não há mal por isso. Há mal é se a dívida, em relação ao PIB, não diminuir.

É que continuaremos então a pagar aos nossos credores 8 mil milhões de euros, mais coisa menos coisa, por ano. O equivalente a 16 submarinos por ano. Ou os tugas são pouco inteligentes ou masoquistas. Qual a Pátria que gosta de ver sair cerca de 4,5% da sua riqueza para pagar juros de uma dívida... que não apresenta sinais de descer, em relação à riqueza produzida?

Por isso preferia que a sobretaxa se tivesse mantido. Que se tivesse mantido até que houvesse um ano orçamental em que a dívida, em relação ao PIB, descesse!

Nota: nunca votei PPC, PP, nem PàF. Os cadernos eleitorais atestam que nas últimas eleições nem votei.