Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 13 de julho de 2017 às 20:50

A estratégia perigosa da Altice para a PT

Não é a primeira vez que na PT há gente emprateleirada ou deixada, ilegalmente, sem funções: no passado de que muitos falam hoje com nostalgia, houve varridelas periódicas de funcionários, muitas vezes com métodos duros.

Mas é no presente que vivemos e o que a Altice está a fazer nesse presente ilustra um grau de falta de vergonha e de esperteza saloia que, não sendo novidade no mercado de trabalho, passam hoje por "boa gestão" (como na política a simples manha passa por "génio").

 

Falo de deixar centenas de pessoas durante meses a fio sem funções, armazenadas em "unidades" com nomes eufemísticos ("Unidade de Suporte"); de querer atirar para o erário público (a Segurança Social) a factura dos três mil trabalhadores em casa e sem funções que valeram um desconto avultado à Altice quando comprou a PT (e que tinham valido no passado à PT uma compensação: ficar com a rede de cobre); ou de querer usar um instrumento legal para contornar direitos e embaratecer os despedimentos. Foi o deputado José Soeiro, com o jeito habitual do Bloco para slogans, quem melhor resumiu a situação: "Faroeste laboral."

 

O tratamento dispensado aos trabalhadores - os "colaboradores" - é um dos aspectos da conhecida cultura de corte de custos da Altice. Só espremendo ao máximo as empresas que compra é que a Altice consegue melhorar de forma rápida e substancial os resultados, que depois usa para ir servindo a pesada dívida que acumulou da noite para o dia para financiar essas mesmas compras.

 

A dívida é um aspecto tão importante como a cultura: há tão pouco tempo como 2012, era de 1,7 mil milhões de dólares; no final do ano passado, estava perto de 50 mil milhões. É preciso gerar resultados no curto prazo para sobreviver com este monstro às costas - a questão é saber se a estratégia de espremer trabalhadores, investimento e fornecedores (tratados com a mesma brutalidade dispensada aos trabalhadores) não será feita à custa da competitividade da própria PT e das restantes empresas que a Altice tem (na SFR em França ou na Cablevision nos EUA, o procedimento e as queixas são idênticas às da PT).

 

A Altice está longe de ter sido o comprador ideal para a PT, mas a situação da empresa também não era propícia a compradores ideais. Há muita falta de memória na política e por isso convém lembrar que a PT foi ordenhada durante anos pelos seus accionistas (onde imperava o BES de Ricardo Salgado) com o aval directo do accionista Estado enquanto houve "golden share". A "destruição" da empresa - ou daquilo que ela poderia ter sido - aconteceu precisamente aí e teve o pico no consulado do PS de Sócrates. A venda à Altice, um negócio entre privados, foi apadrinhada com entusiasmo pelo anterior governo? Sim, tal como a entrada da Fosun (outro negócio opaco e que compra com o pêlo do cão) no BCP foi bem recebida por este - é o peixe que a maré baixa trouxe e, na política, aprende-se a comer o que vem à rede.

 

O primeiro-ministro fez a jogatana política habitual ao colocar na "forma irresponsável" como o anterior governo permitiu a venda da PT o ónus da destruição da empresa. Aproveitou para sacudir a pressão da esquerda sobre o faroeste laboral  e, de caminho, encontrou um primeiro responsável público sobre a tragédia em Pedrógão (fez mais: criou um ambiente adverso para a Altice numa altura em que precisará do aval dos reguladores para futuros negócios, como o da TVI). Houve demagogia e palavras mal escolhidas. Mas é importante não perder de vista o essencial: a saúde financeira do grupo que pretende alargar a sua presença em Portugal e os efeitos da sua estratégia nas empresas que compra. É aí que está a história.

 

Jornalista da revista Sábado

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mais votado Anónimo 14.07.2017

A PT tinha um monopólio, importava tecnologia sob a forma de hardware e software, e o dinheiro rolava neste cantinho à beira mar plantado. Depois tentou expandir-se para o único sítio onde tinha competência para penetrar sem ser votada à mais absoluta irrelevância - o Terceiro Mundo, e nem aí foi bem sucedida. Mais nada. É mais ou menos como a EDP, se bem que esta última, para além de operar num sector caracterizado por uma conjuntura assente em forte subsidio-dependência estrutural, está a aprender com os estrangeiros do Primeiro Mundo e com os erros da própria história de insucesso da PT. Pode ser que no final se saia bem melhor se aprender também a erradicar o excedentarismo e sobrepagamento de carreira de forma conveniente e atempada.

comentários mais recentes
Água Ráz 17.07.2017

Isto é que é igualdade ! Uns vão para casa de mãos a abanar ,outros vão para casa gozar e ainda querem mandar .

A Estratégia perigosa da Altice para PORTUGAL 16.07.2017

Sejamos claros...a Altice despediu na Cabovisão, despediu na PT e vai despedir na TVI.
A forma como o faz pode ter vários nomes, mas na prática o resultado é o mesmo: - Portugueses desempregados ou em piores situações profissionais!

Anónimo 16.07.2017

Sou obrigado a pagar através de comissões, contribuições e impostos o nível de vida passado, actual e futuro de 2200 assalariados da CGD que não são lá precisos para nada. O sindicato deles, o Sindicato Bancário do Sul e Ilhas (SBSI), já analisou os termos oferecidos pela Caixa Geral de Depósitos (CGD) no programa de “Revogações por Mútuo Acordo”, divulgado na última semana de Junho aos trabalhadores do grupo público. E a sentença é negativa: “As condições propostas aos trabalhadores ficam aquém das expectativas.” E agora pergunto eu, quem regula e supervisiona estas criaturas? As do escândalo CGD e de outros escândalos semelhantes. Há muitos casos destes nas organizações portuguesas. Tem sido o pão nosso de cada dia. Querem continuar a dar-me deste pão que o diabo amassou?

Anónimo 15.07.2017

Oi vendeu ao primeiro comprador. PT Portugal/Meo era claramente líder de mercado. Venderam a correr e mal mas apadrinhados pelo governo anterior. Chamem o Pires de Lima para explicar.

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